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PAULISTAS | O êxodo de uma cultura rural

28/02/2018

 

Para quem não sabe com antecedência, só com os créditos finais fica claro que Paulistas (2017) é um filme de família para Daniel Nolasco. Isso porque, embora essa familiaridade com os personagens do documentário e o tema tenha auxiliado o jovem cineasta goiano nas filmagens, ele não a utiliza como instrumento narrativo de seu primeiro longa. Evitando o estilo talking head e qualquer tipo de entrevista, o diretor prefere a observação quase impessoal daquele ambiente um tanto desolador para o seu retrato pessoal das regiões de Paulistas e Soledade, no interior de Goiás, que, assoladas pelo êxodo rural, não possuem mais jovens na sua população, desde 2014, como informa a cartela inicial.

 

O recorte da produção é justamente nas férias de julho, quando os jovens aproveitam a folga de suas faculdades nos centros urbanos, como fica subentendido, e retornam às casas e terras dos pais. Neste extrato do cotidiano das famílias de pequenos produtores agropecuários, o seu foco recai sobre Samuel, Vinícius e Rafael, que são primos de 2º grau de Daniel Nolasco, como afirmou em entrevista para o NERVOS, e como cada um deles lida com esta volta à rotina rural, se integrando mais ou menos às atividades da fazenda, enquanto saem de moto pelos campos do Cerrado ou fazem suas caçadas. Uma dicotomia que o, até então, curta-metragista dedicado às temáticas locais e ao cinema queer – a exemplo de Sr. Raposo (2018), exibido na última Mostra Tiradentes – constrói até musicalmente, na oposição do sertanejo raiz da festa local ao rock psicodélico dos conterrâneos do Boogarins.

 

Construção, aliás, é uma palavra que cabe bem ao filme e sua estrutura narrativa, que vai além das várias simbologias utilizadas. Estas surgem desde a primeira cena, com um casal de seres humanos dando mamadeira ao bezerro, enquanto, mais tarde, o filho deles vai tomar leite direto da vaca; nas televisões como símbolo desta modernidade que antagoniza com o cotidiano dali; ou nos bonés, como no do antigo governo federal da gestão de Fernando Henrique Cardoso ou na mensagem do outro de que “guerra é paz na estrada”, logo após um tiro. Neste último caso, um artifício da montagem, que também trabalha em conjunto com a trilha sonora em momentos como o de “terror” com a apresentação da barragem que foi um dos agentes modificadores da região, em uma cena conduzida com um rigor narrativo, tal qual a do rapaz indo trocar mensagens pelo celular com a namorada de quem tem saudades e tantos outros planos estáticos que estão longe da ideia da “mosca na parede”.

 

É aí, no entanto, que reside o maior dilema de Paulistas: a ficcionalização retira a justificativa de uma simples observação na qual o documentário poderia se apoiar, ao mesmo tempo em que seu uso não aprofunda as questões já informadas na cartela inicial, como era de se esperar, ou a psique de seus personagens, gerando o mínimo de identificação na plateia. A ideia de extinção naquele cenário permanece ao fim do registro como um êxodo – no sentido de capítulo final de uma tragédia, aqui rural – de uma cultura, mas o seu desenvolvimento não é destrinchado como o porco da fazenda, assim como o interesse em saber se a geração que captura em sua lente vai seguir os mesmos passos da anterior ou alterar completamente a sua rota.

 

 

=> Saiba mais sobre a familiaridade do cineasta com o tema, suas estratégias narrativas, o atual cinema goiano e trabalhos futuros na conversa com Daniel Nolasco sobre Paulistas no NERVOS Entrevista #2

Paulistas (2017)

Duração: 86 min | Classificação: 12 anos

Direção: Daniel Nolasco

Roteiro: Daniel Nolasco

Elenco: Rafael Nolasco, Vinicius Nolasco, Samuel Nolasco, Wander Marra, Maria Cristina Nolasco, Irene Alves, Jose Jaconi (veja + no site)

Distribuição: Vitrine Filmes

 

 

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