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PEQUENA GRANDE VIDA | Pequenos grandes dilemas

26/02/2018

 

Quando as primeiras informações sobre a produção do novo trabalho de Alexander Payne começaram a despontar, muito se falava do fato dele estar adentrando o campo da ficção científica. Mas a verdade é que Pequena Grande Vida (2017) apenas se apropria do imaginário do gênero para seguir o caminho da sátira social que o diretor já trilhava nas suas primeiras comédias dramáticas, como Eleição (1999) e Ruth em Questão (1996), exteriorizando a relação entre o macro e os microcosmos em seu cinema.

 

O filme começa passando o desenvolvimento, com o passar dos anos, de uma tecnologia revolucionária de encolhimento de seres humanos, desde o primeiro teste positivo em um centro de pesquisas na Noruega, passando por sua apresentação para a comunidade científica, até a comercialização e popularização da técnica que visa solucionar os problemas ambientais decorrente da superpopulação no planeta. É assim que Paul Safranek (Matt Damon, bem longe de sua identidade Bourne), um homem de meia-idade de Omaha – cidade natal do próprio Payne e localizada no Nebraska –, que trabalha como terapeuta ocupacional, evitando lesões por esforço repetitivo dos funcionários de um frigorífico, e não consegue ter dinheiro suficiente para financiar uma casa maior para morar com sua esposa Audrey (Kristen Wiig, do Caça-Fantasmas de 2016 e A Vida Secreta de Walter Mitty, de 2013), se encanta com a ideia de começar uma vida melhor em uma das comunidades em miniatura. Sim, o sonho dourado não é o imaginado e isso é algo que se espera em um filme desses, porém, o roteiro do cineasta ao lado de Jim Taylor, parceiro dele em Sideways – Entre Umas e Outras (2004) e outros três longas, apresenta detalhes inesperados em uma observação bem-humorada do caminho de seu protagonista, mas que exige certa paciência do público.

 

Um deles é como os desejos e medos não ditos que minam um casamento, e são logo evidentes em Paul e Audrey, desaguam rapidamente em uma consequência que altera a perspectiva do que a trama traria dali em diante. Não precisa muito tempo para revelar que o encolhimento é utilizado também para fins escusos, com o Dr. Jorgen Asbjørnsen (Rolf Lassgård, de Um Homem Chamado Ove, de 2016) vivendo depois um dilema comum a tantos inventores, assim como não solucionou velhas mazelas humanas. Embora levante a questão da consciência ambiental, Payne não tenta fazer dela uma bandeira que prega durante o longa ou buscar uma solução, pois está mais preocupado na sua sátira da vida moderna no retrato supostamente futurista.

 

A Lazerlândia para aonde decidem ir lembra a artificialidade da felicidade suburbana de Mulheres Perfeitas (2004), por exemplo, mas o protagonista, o típico homem médio norte-americano que Damon encarna tão bem, só vai descobrir que o hedonismo deste reino encantado continua a ser privilegiado quando fica próximo do vizinho festeiro Dusan Mirkovic (o ganhador de dois Oscars, Christoph Waltz, com mais um sotaque, agora sérvio, e com uma verve cômica) e que as divisões entre classes sociais permanecem no lugar ao conhecer Ngoc Lan Tran (Hong Chau, de Vício Inerente, de 2014, e da série Big Little Lies). Mesmo que tenha sido construída sobre um estereótipo oriental e para servir ao desenvolvimento do protagonista, a personagem da famosa dissidente vietnamita é uma mulher prática que vai além dessas limitações narrativas graças à ótima atuação de Chau, indicada ao Globo de Ouro e ao SAG, que tira o humor tanto do clichê do inglês ruim quanto de detalhes mais sutis, conseguindo equilibrá-lo com o drama de uma forma sensível e, especialmente em determinada cena, incrível. Assim, ela não leva apenas Paul para além dos muros, mas o espectador.

 

Esse imaginário extraordinário que guia a busca por um sentido na vida que guia o protagonista, sempre confrontado com o ordinário dela, serve de identificação com o público, contudo, neste emaranhado nem sempre uniforme de temas que Payne quer abordar, é a resiliência de Ngoc que lembra que a beleza e o horror são faces da mesma moeda na humanidade e porque vale a pena continuar tentando.

Pequena Grande Vida (Downsizing, 2017)

Duração: 135 min | Classificação: 14 anos

Direção: Alexander Payne

Roteiro: Alexander Payne e Jim Taylor

Elenco: Matt Damon, Hong Chau, Christoph Waltz, Kristen Wiig, Rolf Lassgård, Ingjerd Egeberg, Udo Kier, Søren Pilmark, Jayne Houdyshell, Jason Sudeikis, Neil Patrick Harris, Laura Dern, Niecy Nash, Margo Martindale, James Van Der Beek, Patrick Gallagher e Joaquim de Almeida (veja + no IMDb)

Distribuição: Paramount Pictures

 

 

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