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A GRANDE JOGADA | As cartadas fora do baralho

22/02/2018

 

É sempre um exercício atlético, em termos cinéfilos, acompanhar os confrontos verborrágicos e diálogos rápidos do roteiro de Aaron Sorkin, criador da série West Wing: Nos Bastidores do Poder (1999-2006), que sedimentou seu nome no cinema com o script ganhador do Oscar de A Rede Social (2010) e, cada vez mais, foi criando um estilo próprio em O Homem Que Mudou o Jogo (2011) e Steve Jobs (2015). Sua marca no texto se sobressai tanto que, agora, ele se aventura pela primeira vez na direção, para completar as tantas ideias que coloca no papel.

 

O resultado se vê logo na abertura de A Grande Jogada (2017), sua mais nova adaptação de livros sobre figuras reais de grande inteligência, mas de atitudes questionáveis. A da vez – surpreendentemente, porque o roteirista não costuma dar espaço a personagens femininas em suas tramas – é a autobiografia da esquiadora que se tornou a “Princesa do Pôquer” entre astros do showbusiness e grandes empresários nos Estados Unidos, Molly Bloom. Mas não se engane achando que irá encontrar um filme de esportes, pois o atletismo de Sorkin é cerebral e se expressa na primeira sequência em um amontoado de informações jogadas na tela a la  A Grande Aposta (2015) ou no longo discurso em off entoado por Jessica Chastain, que mostra novamente a sua capacidade para lidar com ligeiras e volumosas falas, já demonstrada com outra mulher de verve semelhante em Armas na Mesa (2016).

 

A frieza, no entanto, aqui não é tão marcante, com a humanidade da protagonista sendo pontuada logo nesta introdução, apresentando como Molly, que foi treinada desde a tenra infância pelo pai (Kevin Costner) no esqui estilo livre – mais exatamente na categoria moguls – perdeu por pouco a chance de ir às Olimpíadas de Inverno e, tentando se encontrar longe da fria Colorado na quente Los Angeles. No entanto, tão cedo o filme a coloca sendo presa pelo FBI, 12 anos depois, por promover ilegalmente jogos de pôquer; embora ela, em nenhum momento do longa, jogue. Assim, o roteiro alterna as suas jogadas a cada mão.

 

Servem de guia as conversas e discussões de Bloom com o seu pretenso advogado Charlie Jaffey (Idris Elba) para lidar com as acusações sem entregar o nome dos envolvidos – a produção também evita nomes reais, mas entre os frequentadores conhecidos estão Leonardo DiCaprio, Ben Affleck e Tobey Maguire, representado junto com outro nome desconhecido no papel do Jogador X, interpretado por Michael Cera. Contudo, a trama ocorre mesmo nas longas digressões sobre como ela, que começou a trabalhar em Los Angeles de garçonete, se tornou secretária pessoal de Dean Keith (Jeremy Strong) e gerente dos jogos semanais de pôquer que o fracassado produtor organizava para famosos de Hollywood, até montar o seu próprio negócio de apostas na “cidade dos sonhos” e também em Nova York, onde se envolveria com a máfia russa. Enquanto isso, alguns flashbacks de sua infância e adolescência (respectivamente, na pele de Piper Howell e Samantha Isler, a filha mais velha do Capitão Fantástico, de 2016) servem para a construção da personagem, em sua conturbada relação com o pai e o peso de ser a “menos especial” entre os irmãos.

 

Se o imponderável surge no caminho dos esquis da metódica Molly desde a sequência inicial, lhe deixando o trauma de ser quase olímpica e do fim da vida que conhecia até então, o roteiro de Sorkin também usa o blefe do pôquer e elementos-surpresa no desenvolvimento de alguns personagens que a circundam, sem necessariamente buscar um plot twist milagroso. Isso não quer dizer que o texto não abra margem a diálogos dispensáveis, redundantes e/ou didáticos, a exemplo da importante cena da terapia express, e que, especialmente, a sua direção estreante pese ainda mais a mão, sem sutilezas ou algo a saltar os olhos nas duas horas e vinte minutos da obra.

A Grande Jogada (Molly’s Game, 2017)

Duração: 140 min | Classificação: 14 anos

Direção: Aaron Sorkin

Roteiro: Aaron Sorkin, baseado no livro “A Grande Jogada” de Molly Bloom

Elenco: Jessica Chastain, Idris Elba, Kevin Costner, Michael Cera, Jeremy Strong, Chris O'Dowd, J.C. MacKenzie, Brian d'Arcy James, Bill Camp, Samantha Isler, Graham Greene, Claire Rankin, Justin Kirk, Angela Gots e Piper Howell (veja + no IMDb)

Distribuição: Diamond Films

 

 

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