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RUINS | Melancólicas ruínas de uma relação e da turnê do First Aid Kit

28/01/2018

 

Para todos aqueles que primeiro tiveram contato com a música do First Aid Kit antes de sua biografia, é sempre uma surpresa descobrir que aquela sonoridade tão norte-americana do duo vem da terra do ABBA. As irmãs suecas Klara e Johanna Söderberg, cujo inglês fluente tem origem na escola internacional que cursaram, descobriram o country quando a primeira – e caçula – ainda tinha 12 anos, e ao experimentarem cantarem juntas viram na reação dos pais que havia algo especial. Justamente as harmonias que levam o ouvinte a um plano quase celestial e que se tornaram conhecidas após o cover delas de Tiger Mountain Peasant Song do Fleet Foxes se tornar um viral indie no YouTube, em 2008, e que voltam a ecoar em Ruins (2018), mostrando, porém, que muitas montanhas já se passaram no caminho da dupla folk até seu quarto e novo álbum.

 

Nascidas em Enskede, cidade nos arredores de Estocolmo as filhas de uma professora de Cinema e de um músico membro da banda local Lolita Pop que passou a ensinar História e Religião, gravaram seu primeiro EP, Drunken Trees, ainda em 2008 e, dois anos depois, o disco de estreia The Big Black And The Blue (2010). Com composições próprias, característica que mantêm até hoje, e a produção musical do pai, os dois trabalhos apresentavam algumas gravações que poderiam parecer ainda demos, mas as canções e vocais já demonstravam o potencial das irmãs, aparecendo na cena neofolk que ganhava força desde então e conhecendo Jack White e os integrantes da banda da qual eram fãs, Bright Eyes, Conor Oberst e Mike Mogis. Mas não ficou só por isso, já que Mogis produziu seus dois álbuns seguintes e Oberst fez uma participação no primeiro deles, The Lion’s Roar (2012), na faixa King of the World.

 

Tendo a homenagem aos grandes nomes da música country Emmylou Harris, Gram Parsons, June Carter e Johnny Cash em Emmylou como carro-chefe de The Lion’s Roar, a surpreendente reedição do gênero, junto com o americana e o indie folk, que o First Aid Kit trazia lá da Suécia chegou aos ouvidos norte-americanos, com sua presença em talk show na TV e grandes festivais, a exemplo do Lollapalooza. Mas foi com Stay Gold (2014), já tendo a Columbia como gravadora e uma instrumentação maior incluindo cordas nos arranjos, demonstrada logo no primeiro single e grande sucesso My Silver Lining, que o duo se firmou no cenário internacional: gravaram Walk Unafraid do R.E.M. para o filme Livre (2014), foram indicadas como Melhor Grupo Internacional no Brit Awards de 2015 e passaram a ser conhecidas aqui, mesmo que para um nicho que ouvia Oi FM ou caçava novidades na internet. Enquanto isso, em sua terra natal, elas adquiriram um status elevado, esgotando em minutos, por exemplo, ingressos de um concerto em tributo a Leonard Cohen, que fizeram em 2017 antes de começarem a divulgar os singles do novo trabalho.

 

O sucesso, no entanto, resultou em uma turnê que parecia interminável para as duas que, além de saudades de casa, enfrentaram outras dificuldades neste ínterim, como o fim do noivado de Klara, cujos ecos são claramente escutados em Ruins. Gravado em Portland, no Oregon, no início do ano passado e lançado agora, em 19 de janeiro, o álbum reflete as ruínas de um relacionamento de onde alguém está e não acredita que acabou, com uma melancolia somada ao cansaço e ceticismo que contrastam com a euforia e otimismo contagiante do anterior. Musicalmente, soa como uma continuação natural e, por vezes, mais experimental de Cedar Lane, mas, liricamente, encontra sua maior proximidade com a última faixa de Stay Gold, a triste e bela A Long Time Ago.

 

Se o primeiro single, divulgado ainda em setembro, It’s a Shame recordava a sonoridade de então, a mudança é sentida logo na abertura do disco, cuja produção ficou a cargo de Tucker Martine, que trabalhou com artistas como The Decemberists, Sufjan Stevens, Mavis Staples, Iron And Wine, Edward Sharpe And The Magnetic Zeros, Camera Obscura, She and Him e R.E.M. – do último e clássico grupo, aliás, há a contribuição do guitarrista Peter Buck e também de Glenn Kotche do Wilco e McKenzie Smith do Midlake na gravação. O som do marcante pedal steel permanece, mas soa de modo diferente no estilo a la Fleetwood Mac de Rebel Heart, que pesa mais no rock e trompetes no final. Um sinal dessa transição, talvez, seja o fato de que Johanna agora toca baixo, além de teclado e auto-harpa, enquanto Klara continua com o violão.

 

O country clássico de que as irmãs Söderberg tanto beberam de Emmylou Harris e outros nomes ainda está puramente expresso em Postcard, enquanto o indie folk atual dá o tom inicial de My Wild Sweet Life, na qual têm destaque o piano e a percussão marcante em todo o álbum. É a marcha na bateria de Fireworks que distingue a música de qualquer outra balada dos anos 50, enquanto o clima setentista está presente na bucólica To Live a Life. A música, no entanto, está no miolo do disco, não tão instigante quanto sua introdução.

 

O álbum ganha novamente a atenção mais dedicada do ouvinte em seu encerramento, quando a familiar Distant Star apresenta uma pausa precisa no último verso, “But I think I'm getting used to the silence now”. O toque diferente abre uma sequência que traz as harmonias sempre cativantes da dupla remetendo à melancolia de certas canções de Simon and Garfunkel na faixa-título Ruins; um coro final e trompetes que recordam o próprio Fleet Foxes e o Beirut em Hem of Her Dress; e um final grandioso de Nothing Has To Be True que evoca o Mumford & Sons desta fase Wilder Mind (2015). Em comparação com a banda inglesa contemporânea desta nova cena folk, a diferença é que, aqui, Klara e Johanna conciliam melhor a experimentação musical que buscam e a digital sonora que as levou a este patamar.

 

É uma das razões que mantém o interesse em Ruins: sem ser tão potente e viciante quanto Stay Gold, o qual o fã terá vontade de ouvir novamente logo após ouvi-lo, não demora para que o novo álbum o faça sentir o aconchego de um lar, mesmo que este esteja um pouco mais triste agora.

Ruins (2018)

Artista: First Aid Kit

Duração: 39:37 (10 faixas)

Gravadora: Columbia

 

 

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