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THE POST – A GUERRA SECRETA | Publicar não é apenas clicar um botão

25/01/2018

 

Um presidente norte-americano se indispõe contra a imprensa, proibindo uma jornalista de cobrir o casamento de sua filha e depois todo um jornal de entrar na Casa Branca. O líder em questão é Richard Nixon e o contexto em que está inserido é o dos “Papéis do Pentágono”, primeira grande desestabilização de seu governo, que sucumbiria depois com o escândalo do Watergate. Mas não é segredo que o cineasta Steven Spielberg correu com as filmagens e pós-produção de seu novo longa-metragem sobre o caso de 1971 pensando no cenário político de 2017, com os discursos do atual presidente Donald Trump sobre “fake news” dando o tom de sua perseguição pública a vários veículos de comunicação – e, obviamente, também para dar tempo de The Post – A Guerra Secreta (2017) entrar na disputa do Oscar 2018, no qual conseguiu emplacar duas indicações, incluindo a de Melhor Filme.

 

A representação do caso começa justamente com a chegada do pesquisador Daniel Ellsberg (Matthew Rhys) em plena Guerra do Vietnã, em que comprovaria não só o retrocesso dos Estados Unidos no combate, mas como uma série de governos mantém o país em um embate cuja derrota é iminente, só para evitar a humilhação de declará-la. A mudança de discurso do secretário de Defesa Robert McNamara (Bruce Greenwood), dentro e fora do avião, mostrada em uma cena, faz com que Ellsberg copie esses arquivos secretos da pesquisa e, dois anos depois, os entregasse ao New York Times. Com a censura ao jornal e concorrente nova-iorquino, o filme apresenta como o The Washington Post tem a chance de se tornar protagonista desta história, mas, para isso, arriscando a própria sobrevivência da publicação, pois a empresa tenta equilibrar sua saúde financeira se lançando no mercado de ações.

 

O roteirista Josh Singer tem em mãos um material já conhecido dele: o ambiente da Casa Branca que escreveu na série West Wing: Nos Bastidores do Poder (1999-2006), os vazamentos governamentais guiando um thriller como O Quinto Poder (2013) e o drama jornalístico pelo qual ganhou um Oscar com Spotlight: Segredos Revelados (2015). No entanto, como ele entrou na produção após Spielberg embarcar, o mérito de The Post ter na reportagem investigativa, capitaneada de modo destacável por Bob Odenkirk – da série Better Call Saul (2015-) –, apenas uma das camadas do filme é da estreante Liz Hannah. Em seu primeiro roteiro, escrito em 2016, com Trump ainda em campanha e erroneamente não sendo levado a sério, ela aposta em dois protagonistas na faixa dos cinquenta anos e que não formam um casal romântico ao focar nos meandros da diretoria de um jornal e seu editor-chefe, que viriam a ser encarnados na tela por Meryl Streep e Tom Hanks.

 

A complexidade, porém, é dada mais à personagem de Streep, conseguindo a sua 21ª indicação ao prêmio da Academia na pele de Katharine Graham, herdeira do Washington Post muito bem relacionada na alta sociedade da capital do país, mas cuja autoridade é questionada ao assumir a diretoria do jornal após a morte do marido. Hanks vive Ben Bradlee, editor que a instiga a tomar as rédeas dos Pentagon Papers, apesar do medo do departamento financeiro e de conselheiros de perder os investidores e dela mesma em ver pessoas amigas envolvidas nessa mentira pública.

 

Por isso, The Post é um daqueles filmes que logo serão recomendados ou exibidos nas faculdades de Jornalismo, não apenas pela defesa da liberdade de imprensa em tempos de descrédito público por parte de políticos acuados, mas por um retrato longe da imparcialidade utópica. O jornalismo é feito por seres humanos, com seus mais variados graus de relacionamento fora da redação, mas que, em seus grandes momentos de decisão e de necessidade de tomada de consciência da população, tem de colocar os fatos à frente de tudo, até de si mesmo – a ressonância dessas discussões na mídia brasileira e um poder estatal em questionamento, nos últimos anos, devem vir à mente do espectador. Um lembrete da importância da sua função que o filme traz junto com o afago à classe jornalística.

 

Justamente por esse dever profissional, a análise crítica da obra não deve negligenciar na avaliação de suas competências cinematográficas pela concordância com o seu discurso. Trata-se de uma produção correta e bem-feita tecnicamente, levando-se em conta a pressa em finalizá-la, especialmente no que condiz à ambientação de época, mas que tenta disfarçar o seu caminho usual, desde a abertura, trocando Fortunate Son, canção do Creedence Clearwater Revival que seria imortalizada como um hino contra a Guerra do Vietnã, por outra música da banda, Green River. O bom humor com que faz uma menção final ao Watergate, outro caso que o Washington Post cobriria e que retratado em Todos os Homens do Presidente (1976), clássico drama jornalístico a qual naturalmente remete, é o que dá certo toque spielberguiano ao filme, a exemplo da mise-en-scène caótica que cria na reunião entre jornalistas e advogados na casa de Bradlee, em que a sua filha (Austyn Johnson) vendendo limonada se torna o alívio cômico.

 

Contudo, o mesmo Spielberg pesa a mão nas boas intenções de retratar o machismo e a censura à imprensa vigentes naquela sociedade ou na atual. Seja na forma como dirige a cena da escadaria do tribunal, com Meryl descendo sozinha em frente a um grupo de mulheres que a admiram, ou nos diálogos, em que um grande discurso de Tony Bradlee ao marido, tenta justificar Sarah Paulson, premiada pela primeira temporada de American Crime Story (2016-), no mero papel de “esposa do editor” e simultaneamente a personagem de Graham, como se a coragem da protagonista já não estivesse clara ao público. Talvez a chave do filme esteja justamente neste grande elenco que o diretor tem em mãos e que esteve tão disposto em fazer a sua parte, a exemplo de Carrie Coon, pois se a atriz das séries The Leftovers (2014-17) e Fargo (2014-) emociona o público no grande momento que é dado à sua personagem e que, se não fosse ela e o sentido de sua fala, facilmente poderia ser considerado piegas, entrega a mesma competência quando, em silêncio, no meio de tanta balburdia na sala, se depara com os tais papéis e se choca com seu conteúdo. São nestas pequenas ações que The Post soa mais verdadeiro e comprometido com sua importante e necessária mensagem.

The Post – A Guerra Secreta (The Post, 2017)

Duração: 116 min | Classificação: 12 anos

Direção: Steven Spielberg

Roteiro: Liz Hannah e Josh Singer

Elenco: Meryl Streep, Tom Hanks, Sarah Paulson, Tracy Letts, Bradley Whitford, Bruce Greenwood, Matthew Rhys, Alison Brie, Carrie Coon, Jesse Plemons, David Cross, Zach Woods, Pat Healy, John Rue, Michael Stuhlbarg e Austyn Johnson (veja + no IMDb)

Distribuição: Universal Pictures

 

 

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