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ME CHAME PELO SEU NOME | Que se chama amor

18/01/2018

 

Esculturas greco-romanas surgem logo nos créditos iniciais de Me Chame Pelo Seu Nome (2017) e identificam não apenas a natureza dos estudos que levam um rapaz norte-americano para a casa de um professor no norte da Itália, durante o verão de 1983, a fim de aprimorar sua pesquisa sobre o filósofo Heráclito. Quando em um momento posterior, o historiador e arqueólogo Sr. Perlman (Michael Stuhlbarg) analisa essas obras clássicas pelos slides, deixa explícito o que a presença delas desde o início indica: formas perfeitas, mas indefinidas quanto à idade e outros elementos de identificação, que exalam erotismo e “pedem para serem desejadas”, resumem o espírito da adaptação do livro homônimo de André Aciman, dirigida por Luca Guadagnino. Ao mesmo tempo em que encerra a sua trilogia do “Desejo”, iniciada por Um Sonho de Amor (2009) e continuada com Um Mergulho no Passado / A Bigger Splash (2015), o cineasta italiano pretende apenas contar um romance como outro qualquer, em que a identidade dos amantes, o aluno residente Oliver (Armie Hammer) e o jovem filho de seu mestre, Elio (Timothée Chalamet) seja um mero detalhe.

 

O êxito desta coprodução entre Itália, França, Brasil – presente com a produtora RT Features do brasileiro Rodrigo Teixeira – e Estados Unidos é que, igual aos diálogos que transitam entre o inglês, italiano e francês na casa dessa família transnacional e judia, a obra consegue abarcar o caminho romântico e erótico da história de um modo harmônico, em que um aspecto não se sobrepõe ao outro. Assim como tudo é movimento para Heráclito, a trama se apoia em um coming of age para Elio, que aos 17 anos vivencia as descobertas de sua própria sexualidade, onde tudo é fluído e quente como a fotografia solar em 35mm do tailandês Sayombhu Mukdeeprom, de Tio Boonmee, Que Pode Recordar Suas Vidas Passadas (2010).

 

Tentando dar um passo a mais na sua relação de amizade colorida com a jovem francesa Marzia (Esther Garrel, filha de Philippe e irmã de Louis Garrel), o garoto também desenvolve um interesse contraditório pelo hóspede. Todo verão, seus pais recebem um estudante e ele é desalojado de seu próprio quarto, mas Oliver gera uma implicância especial dele e igualmente o faz desejar tê-lo por perto, em uma relação de atração e repulsão que se desenvolve por toda a primeira metade do filme e é sintetizada na sequência do piano. Na sutileza da direção, até os pêssegos e damascos contribuem nessa construção, representando o desejo como um fruto proibido – muito antes de chegar à “famosa” cena do pêssego –, tal qual o protagonista é colocado na mesma posição, como uma fruta a qual as moscas, sempre presentes no longa, e Oliver não conseguissem evitar.

 

Guadagnino, por sua vez, escapa da obviedade ao, no primeiro grande momento de tensão e certa exposição de sentimentos entre os dois que gradualmente cresce através dos diálogos, compor uma mise-en-scène que os afasta fisicamente, ao contornarem uma fonte com um monumento da I Guerra Mundial, como se não apenas amar, como verbalizar e viver o seu amor, fosse uma batalha. Não à toa, a cena surge em decorrência de um poema alemão sobre a relação de um cavaleiro e uma princesa, em que o apaixonado se pergunta se o melhor seria “falar ou morrer”, que ecoa em Elio que, com toda a sua educação erudita e talento musical, acredita não ser inteligente naquilo que importa. É assim que James Ivory, que lá em 1987 dirigiu Maurice, adaptação de outro romance homossexual, desenha o seu roteiro pelas palavras que não são ditas ou o que fica subentendido pelas que saem da boa dos personagens.

 

Isso garante um material muito mais estimulante ao elenco, que acompanha este mesmo tom. Se Armie Hammer faz um tipo que pode parecer pedante no início ou até aproveitador em alguns instantes e mostra uma resistência depois à aproximação do jovem, logo se revela frágil ao se abrir para esta relação. No entanto, é Timothée Chalamet quem domina a cena, especialmente quando expõe os sentimentos de seu personagem no corpo e nos olhares – a cena final, ao som de Visions of Gideon, uma das duas músicas compostas por Sufjan Stevens para a ótima trilha sonora do filme, fecha excepcionalmente essa jornada emocional a que o ator se entrega. Quando a duração da produção começa a pesar, a palavra é dada, afinal, a Michael Stuhlbarg, despertando novamente a atenção com o discurso de um pai que, mais do que consolar o filho, dá o conforto que o público precisa.

 

A compreensão que Elio encontra tanto nele quanto silenciosamente na mãe (Amira Casar), o coloca em um lugar muito mais privilegiado, não só financeira e socialmente, que o protagonista do vencedor do último Oscar, Moonlight: Sob a Luz do Luar (2016), com quem pode ser comparado só pela temática. Por isso, a menos que haja uma identificação instantânea com alguma passagem da história que faz alguns se apaixonarem pelo filme, a obra não chega a ser tão arrebatadora ao resto por essa distância desse cenário idílico. Contudo, a maneira como os aspectos universais dela, a exemplo do amor e as escolhas feitas durante a vida, ecoam depois da sessão e dominam os pensamentos do espectador, criam neste um sentimento particular e único por Me Chame Pelo Seu Nome.

Me Chame Pelo Seu Nome (Call Me By Your Name, 2017)

Duração: 132 min | Classificação: 14 anos

Direção: Luca Guadagnino

Roteiro: James Ivory, baseado no livro “Me Chame Pelo Seu Nome” de André Aciman

Elenco: Timothée Chalamet, Armie Hammer, Michael Stuhlbarg, Amira Casar, Esther Garrel, Victoire Du Bois, Vanda Capriolo e Antonio Rimoldi (veja + no IMDb)

Distribuição: Sony Pictures

 

 

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