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TLC, SOMETHING TO TELL YOU, AFTER LAUGHTER, POLLINATOR, EVERYTHING NOW e HARRY STYLES | De volta para o futuro

31/12/2017

 

Em um cenário em que a música pop, ou abrindo mais o leque, mainstream tem se tornado cada vez mais homogênea em suas fórmulas que utilizam elementos eletrônicos e de R&B – o pop latino que ganhou força em 2017, talvez, seja a única brisa que trouxe frescor para as canções que dominam as paradas internacionais, física ou digitalmente –, um movimento contrário se destacou em alguns álbuns lançados neste ano. Buscar em referências do passado, próprias ou de outrem, as ferramentas para trazer sons que possam vislumbrar algo novo no horizonte atual.

 

Neste “de volta para o futuro musical”, houve um retorno às origens, seja na memória de seu próprio sucesso com Blondie e seu Pollinator ou na retomada ao ponto onde ele parou abrupta e tragicamente para o TLC e seu autointitulado álbum final. E também uma nostalgia sonora, desde a banda Paramore recuperando o synth pop de oito anos atrás e a new wave oitentista em seu profundo After Laughter ao aprofundamento da sonoridade retrô em Something To Tell You, segundo trabalho da Haim, um mergulho feito por Arcade Fire, continuando suas experimentações anteriores em Everything Now, e Harry Styles, como uma declaração de quem é em seu disco de estreia que leva o seu nome e não do que fazia enquanto integrante da One Direction. Uma viagem temporal musical que você lê e ouve em detalhes a seguir:

 

 

 

 

 

 

“Nós voltamos”, afirmam em No Introduction, na tradicional intro que, ironicamente, exalta a história do grupo, a qual “T-Boz” e “Chilli” reafirmam em seu quinto e último álbum, TLC, lançado em 30 de junho. Levando o nome do grupo, esse testamento final em forma de disco traz Tionne Watkins e Rozonda Thomas novamente se reuniram em estúdio, após 15 anos, para levar o legado do trio que se tornou o girl group mais bem-sucedido dos Estados Unidos e o segundo mundialmente, ficando atrás apenas das Spice Girls. Para isso, elas começam reafirmando sua amizade no single inicial com Snoop Dogg, Way Back, que assim como a faixa seguinte, It’s Sunny, voltam às suas raízes e influências dos clássicos do R&B e do funk, como citados no primeiro – de Prince a Marvin Gaye, James Brown a Michael Jackson – e sampleados na segunda – no caso, Sunny de Bobby Hebb e September do Earth Wind and Fire. 

 

Way Back mostra, simultaneamente, uma volta do TLC ao ponto em que eles deixaram o showbusiness, após a morte da terceira integrante e amiga Lisa Lopes, a rapper “Left Eye”, em um acidente de carro em Honduras, em abril de 2002. A evolução do R&B e hip hop que elas apresentaram em sua carreira, desde Ooooooohhh... On The TLC Tip (1992), e que, em FanMail (1999) e no “póstumo” 3D (2002) apontava de que maneira ambos os gêneros dominariam as paradas pop naquele início dos anos 2000, surge naturalmente em faixas como Aye MuthaFucka e Scandalous – que evoca Ciara e seu 1,2 Step – e sugerem como seria um álbum delas dali a dois ou três anos depois do trabalho anterior; tal qual Haters, com sua vibe a la Flo Rida, poderia aparecer em um trabalho seguinte e Start a Fire, que usa os vocais sensuais de T-Boz e Chilli, que ficaram marcantes no seminal CrazySexyCool (1994), em uma balada acústica que encerra em uma atmosfera de Kendrick Lamar, seria o realmente a canção delas para esta década.

 

Precursoras dentro do cenário hip hop com letras feministas desde o início, quando a causa não era utilizada quase como uma marca pela indústria cultural como hoje, elas tornaram No Scrubs e Unpretty seus próprios “hinos” para o girl power dos anos 90, que também tinha as próprias Spice Girls, Gwen Stefani e Alanis Morissette como algumas da expoentes, e continuam com essa preocupação na nova Perfect Girls. Junto com American Gold, que segue a fórmula pop atual, mas tem na crítica à cultura bélica norte-americana um eco do posicionamento firme de seu maior hit Waterfalls, falando sobre tráfico de drogas e AIDS, são as exceções de um disco que sente a falta da potência e poesia dos raps de Left Eye, cuja lembrança aqui fica nos trechos de entrevista colocados em Interlude, seguindo a tradição de colocar interlúdios em seus trabalhos, cuja criatividade neles se tornou uma marca do grupo. A despedida na sonoridade mais clássica delas na faixa derradeira Joy Ride serve como um agradecimento aos fãs que apoiaram o trio desde sempre e as duas após essa perda, inclusive financiando coletivamente este álbum em uma campanha no Kickstarter, e dando a eles justamente o ponto final que o TLC precisava.

 

TLC (2017)

Artista: TLC

Duração: 41:05 (12 faixas)

Gravadora: Sony Music RED (EUA) | Cooking Vinyl (resto do mundo)

 

  

 

 

 

 

Quando as três irmãs judias californianas Danielle, Este e Alana Haim surgiram no cenário indie, com um pop rock vintage dos anos 70 e 80 e ecos de R&B da década de 90 nos arranjos musicais e vocais de seu viciante disco de estreia Days Are Gone (2013), foram apontadas como a grande novidade daquela temporada. Após quatro anos de muitos shows na estrada – e nenhum na América do Sul, para a decepção dos fãs brasileiros –, a banda que leva o sobrenome delas, Haim, finalmente lança seu esperado trabalho seguinte, Something To Tell You (2017), novamente com a produção de Ariel Rechtshaid e também de Rostam Batmanglij, do Vampire Weekend, em algumas faixas. O segundo álbum, lançado em 7 de julho, aprofunda essas influências ouvidas anteriormente e as deixa mais evidentes, porém, sem deixar de equilibrá-las de seu jeito próprio, já nos primeiros singles Want You Back e Right Now, com a presença das marcantes percussões e harmonias, que agora tem Alana assumindo mais os vocais, que prioritariamente continuam a ser de Danielle.

 

Enquanto Ready For You e Walking Away atestam mais claramente a herança do R&B das girl group noventistas Destiny’s Child e, especialmente, o próprio TLC na harmonização e batida, elas estendem essas referências, surpreendentemente indo até os anos 60, evocando The Supremes e a era dourada desse tipo de formação com Kept Me Crying. You Never Knew é a balada mais setentista do disco e junto com Nothing’s Wrong e Little of Your Love trazem a influência do Fleetwood Mac e consequentemente de Stevie Nicks, que sempre foram motivo de comparação instantânea para o trio, sendo que a sonoridade oitentista circunda e liga essa mistura, evidente na triste despedida de Night So Long ou na faixa-título. Se as letras não se diversificam tanto em relação ao anterior e versam sobre relacionamentos complicados, terminados e a tentativa de superar este fim, as Haim apresentam sua evolução musical nos arranjos e produção das canções destes, em uma fusão sonora capaz até de mesclar cordas com sons de fax e bipes eletrônicos em Found It In Silence.

 

Something to Tell You (2017)

Artista: Haim

Duração: 42:34 (11 faixas)

Gravadora: Polydor / Universal Music International

 

 

 

 

 

 

Quando o Paramore confirmava o sucesso de Riot! (2007) e a sonoridade punk pop que a fez despontar na cena emo desde All We Know Is Falling (2005) com seu terceiro e maduro álbum brand new eyes (2009), o duo britânico Ting Tings e os brasileiros do Copacabana Club levavam um rock eletrônico para as paradas alternativas e até mainstream. Oito anos depois, os norte-americanos resgataram esse synthpop em Hard Times, primeiro single do seu novo trabalho. A melodia contagiante, no entanto, contrastava com a letra depressiva falando sobre os tempos difíceis, dando o tom do quinto disco deles, After Laughter (2017), lançado em 12 de maio e que marca a volta do baterista e fundador da banda, Zac Farro.

 

Sem a obrigação de reafirmar o legado da banda, após a saída de Zac e de Josh Farro no álbum anterior, Paramore (2013), a líder e vocalista Hayley Williams pode mergulhar mais nas experimentações que já demonstrava ali, apostando não apenas neste dance-rock dos anos 2000, mas também na new wave oitentista, marcante em Rose-Colored Boy. Assumindo a herança de sua linhagem, as influências de Blondie – já declarada em Daydreaming, no quarto trabalho – e No Doubt são utilizadas no quase ska Caught In The Middle, enquanto Forgiveness segue a linha de reimaginação dos anos 80, seja na introdução e versos que recordam Vampire Weekend e Bombay Bicycle Club ou no refrão que remete à Haim.

 

A mudança estilística, porém, não apenas apresenta uma evolução musical do trio, agora formado por Hayley, Zac e o guitarrista Taylor York, como serve para aprofundar o tema de After Laughter, visível desde o título. As melodias aparentemente alegres conversam com as letras que abordam a depressão, ansiedade e desânimo para falar do que se esconde por trás da aparência de felicidade, como estampa Fake Happy, que segue o som mais clássico da banda, um pouco como Idle Worship, em que Williams discute a pressão da idolatria dos fãs. Seus riffs continuam, mas completamente dark em uma espiral emocional decrescente no monólogo de Aaron Weiss do MewithoutYou, na pesada e estranha No Friends, que antecede uma balada pop mais atual no piano em Tell Me How, que encerra com melancolia o álbum que abre melodicamente alegre. A vocalista e também compositora, que já demonstrava este aspecto confessional nas primeiras canções sobre o divórcio dos pais, atinge um amadurecimento aqui que se revela em versos cortantes como “Eu não preciso de ajuda nenhuma, eu posso me sabotar sozinha”, em Caught In The Middle, ou no resumo de um sentimento comum neste ano de 2017, que faz em 26, balada dirigida a alguém que a deixou para baixo (ou para a própria depressão?): “A realidade vai partir seu coração / Sobreviver não é a parte mais difícil / É manter as suas esperanças vivas / Quando todo o resto de você morreu”.

 

After Laughter (2017)

Artista: Paramore

Duração: 42:31 (12 faixas)

Gravadora: Fueled by Ramen

 

 

 

 

 

 

Expoente da cena punk e new wave que surgia na Nova York do final dos anos 70 – mais exatamente no famoso clube CBGB – e primeira banda norte-americana a ter singles #1 no Reino Unido em três décadas seguidas, o Blondie tem todo direito de fazer um autotributo em seu 11º álbum de estúdio, até porque, ainda assim, entrega algo que soa diferente do rock atual. Com a famosa frontrunner Debbie Harry, o guitarrista e parceiro de letras Chris Stein e o poderoso baterista Clem Burke da formação clássica, a banda lançou Pollinator em 5 de maio, trazendo a sonoridade de seu auge, quando produziram loucamente até o início da década de 80, e o trabalho mais pungente desde a volta deles em No Exit (1999) com o hit Maria. Na realidade, porém, não só eles estão empenhados neste “revival”, pois contam com a ajuda de uma série de admiradores na composição e/ou produção das canções do novo trabalho.

 

Com a participação de Joan Jett e Laurie Anderson nos vocais, Doom or Destination abre o disco com uma mistura de Sunday Girl, Dreaming e One Day or Another, enquanto o single Long Time, escrito ao lado de Dev Hynes (o Blood Orange), evoca o hit dance Heart of Glass. A também viciante Love Level tem a participação do comediante e músico John Roberts; My Monster é composta por Johnny Marr, do The Smiths; Gravity tem letras de Charli XCX; Best Day Ever traz uma parceria de Nick Valensi do The Strokes e Sia na composição, e por aí vai, em faixas que falam de paixões avassaladoras, relacionamentos que vai-e-vem e términos difíceis, alternando liricamente na qualidade. Mas o resgate sonoro da banda não fica restrito ao Parallel Lines (1978): Already Naked é um Eat to the Beat (1979) para os tempos atuais, enquanto When I Gave Up on You traz as baladas do Autoamerican (1980), influência que se une ao do synthpop utilizado em Ghosts of Download (2014) na canção Fun, escrita por Dave Sitek do TV on the Radio. Too Much e Fragments possuem um som oitentista que recorda até o esquecido disco conceitual The Hunter (1982), fechando um álbum que atesta como o Blondie realmente soube polinizar a sua música por aí.

 

Pollinator (2017)

Artista: Blondie

Duração: 45:34 (11 faixas)

Gravadora: BMG Rights Management (UK)

 

 

 

 

 

 

 

Continuando com as discussões sobre a modernidade e dificuldade de conexão, já vistas em The Suburbs (2010) e Reflektor (2013), o Arcade Fire faz de seu quinto álbum, Everything Now (2017) um tratado sobre o excesso de informações da vida moderna, com tudo acontecendo ao mesmo tempo, no agora, desde sua faixa-título. Com um piano que remete ao ABBA, também evocado em Put Your Money On Me, a banda canadense mergulha no dance-rock, já experimentado por eles em Sprawl II (Mountains Beyond Mountains) – tão influenciada por Heart of Glass do Blondie que existe um  ótimo mashup das duas canções na internet – e mais claramente no disco anterior, mergulhando mais intensamente neste território e em outras influências oitentistas, como a new wave, no novo trabalho lançado em 28 de julho.

 

Chemestry tem a vibe do Talking Heads e Good God Damn mais uma vez mostra a reverência de Win Butler, Régine Chassagne e sua gangue a David Bowie. Nesta experimentação, é curioso que o final de Infinite Content lembre The Killers, enquanto a banda de Las Vegas, por sua vez, recorde o som dos canadenses em seu single recente The Man. Na mais pesada das composições, o grupo aborda o suicídio em Creature Comfort, voltando ao tema da morte que tratam desde que inovaram o cenário indie com seu rock barroco em Funeral (2004) e Neon Bible (2007). As letras não são tão marcantes no novo álbum, que traz um pouco da efemeridade que trata desde o título, mas nada que o impeça de ser mais um passo interessante na carreira do Arcade Fire.  

 

Everything Now (2017)

Artista: Arcade Fire

Duração: 47:11 (13 faixas)

Gravadora: Sonovox | Columbia

 

 

 

 

 

 

 

Em seu autointitulado disco de estreia, Harry Styles claramente deseja se firmar como artista através de seu nome, e não da descrição que o acompanha de integrante da boyband britânica One Direction, oficialmente em um hiato. Para isso, no début de sua carreira solo, lançado em 12 de maio, demarca quem é através do que cresceu ouvindo. Essas influências, que vão bem além do pop que cantava até então, fazem de Harry Styles (2017) uma grata surpresa com o seu rock clássico mesclado com canções acústicas que beiram o folk. 

 

O tom diferente já estava claro desde o primeiro single, Sign of the Times, que traz tanto o glam rock no estilo David Bowie em uma balada oitentista a la Total Eclipse of the Heart, de Bonnie Tyler. O rock dos Rolling Stones surge após a ambientação onírica de Only Angel e na tropical Carolina, com um refrão que lembra Queens of Stone Age, assim como Woman é a sua Bennie and The Jets (Elton John) e Kiwi segue o caminho do Artic Monkeys. Two Ghosts mistura softrock  dos anos 70, com uma guitarra country, que recorda até Stereophonics, enquanto Meet Me in the Hallway abre com uma vibe de Radiohead e um pouco de folk. O gênero também aparece em Sweet Creature, da forma mais tradicional e com elementos que remetem ao neofolk do Bon Iver, tal qual a desoladora Ever Since New York carregando uma percussão marcante. Com letras sobre relacionamentos, da conquista ao fim, Harry encerra o álbum de modo confessional com From the Dinning Table, como se estive ao pé do ouvido no telefone - no caso, no fone -, dando só um vislumbre de um arranjo de cordas que tem a influência dos Beatles, a quem o jovem inglês parece se inspirar nesse caminho de amadurecimento do pop que arrebata fãs por todo o mundo à experimentação sonora que leva à sua mais honesta expressão musical. 

 

Harry Styles (2017)

Artista: Harry Styles

Duração: 40:12 (10 faixas)

Gravadora: Erskine Records / Columbia

 

 

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