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THELMA | O convulsionante processo de amadurecer

01/12/2017

 

Na origem grega da palavra epilepsia, se encontra um verbo que significa “possuir”, “tomar”, “capturar”. É sintomático, portanto, que o cineasta Joachim Trier coloque convulsões como manifestação física de um processo de transformação da personagem-título de Thelma (2017), filme escolhido como representante da Noruega na disputa por uma indicação a Melhor Filme Estrangeiro no Oscar 2018. As crises convulsivas claramente representam o processo de tomar posse de seu próprio corpo e de si mesmo no coming of age em que o longa-metragem se estrutura, mas igualmente servem de alegoria para a tomada de posse do outro que acontece no thriller sobrenatural pelo qual a narrativa navega.

 

A princípio, como demonstra um dos primeiros planos, Thelma (Eili Harboe) é só mais uma na multidão ao chegar do interior para estudar na cidade grande – provavelmente, Oslo, capital do país. Tímida, a jovem tem dificuldade para fazer amigos e, sozinha em seu dormitório, é sempre interrogada ao telefone, por seus pais superprotetores (Henrik Rafaelsen como o ambíguo pai e Ellen Dorrit Petersen como a ressentida mãe), sobre seus passos. A rígida educação familiar e base religiosa cristã tradicional fazem com que ela fique confusa quando se apaixona por Anja (Kaya Wilkins), uma colega de faculdade que conheceu justamente na primeira vez que teve uma convulsão.

 

Na cartilha do coming of age, o roteiro de Trier e Eskil Vogt segue aquele caminho de autodescoberta quase clichê do gênero, através da bebida, cigarro e do sexo. O que diferencia o novo trabalho do diretor de Oslo, 31 de Agosto (2011) na língua nativa, após sua primeira experiência em um filme em inglês com Mais Forte Que Bombas (2015), é o tratamento que dá a essa história, carregando-a de simbolismos de repressão e libertação e deixando claro, desde o início, que há algo de estranho, sem deixar de perder o controle sobre o ponto de ebulição dessa crescente tensão da narrativa, alimentada pela trilha sonora e montagem.

 

Não que o uso das convulsões como alegorias para a transformação no corpo feminino seja inédito, pois o ótimo The Fits (2016), de Anna Rose Holmer, já usava o artifício como sintoma da turbulência da adolescência naquele grupo de meninas. Ao remontar o histórico da epilepsia psicogênica, de origem psicológica – aliás, é importante avisar que o filme não é recomendado para quem sofre de epilepsia fotossensível, por causa dos flashes de luz que são usados em determinadas cenas –, ligando às acusações de bruxaria e histeria feminina, o longa conversa com outras obras que tratam este medo da “mulher”, seja no terror de Robert Eggers, A Bruxa (2015), ou no retrato do início da psicanálise de David Cronenberg, em Um Método Perigoso (2011). Só que Thelma não é mais uma na multidão e a convulsão é também uma manifestação de seus poderes, que ela está descobrindo e não sabe muito bem o que fazer com eles.

 

Com uma complexa protagonista vítima e algoz de si mesma e dos outros, a abertura do filme ecoa no terceiro ato com o seu tenso questionamento sobre quem é a caça e quem é o caçador. Por fim, Thelma se torna uma obra sobre outro poder, não sobre-humano: o de escolha, ou usando da linguagem cristã da própria personagem, o livre arbítrio.

Thelma (Thelma, 2017)

Duração: 116 min | Classificação: 16 anos

Direção: Joachim Trier

Roteiro: Joachim Trier e Eskil Vogt

Elenco: Eili Harboe, Kaya Wilkins, Henrik Rafaelsen, Ellen Dorrit Petersen, Ingrid Giæver e Steinar Klouman Hallert (veja + no IMDb)

Distribuição: Mares Filmes

 

 

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