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POR QUE VIVEMOS | Conhecendo outras respostas

26/11/2017

 

Os ocidentais podem estar tão acostumados a ver as histórias judaico-cristãs nas telas, nas mais diferentes formas por diversas vezes, que têm certo choque ao se deparar com outras culturas e suas próprias tradições religiosas. O anime japonês Por Que Vivemos (2016) faz um exercício deste tipo em sua primeira plateia estrangeira – a animação de Hideaki Oba estreia no exterior, através do circuito brasileiro, depois de ficar 29 semanas em cartaz no Japão –, ao apresentar uma passagem importante da história do budismo. Mais especificamente da vertente Jodo Shinshu, ou Verdadeira Escola da Terra Pura, cujas dificuldades de expansão no século XV, quando o então xogunato que comandava o país sofria com guerras civis, são levadas para o cinema pelo roteirista Kentetsu Takamori, professor desse ramo do budismo e também autor do livro best-seller homônimo que inspirou a produção.

 

Para isso, ele conta a história de dois importantes personagens neste processo. O primeiro deles é o protagonista Ryoken (voz de Katsuyuki Konishi), um homem do campo cujas experiências passadas na infância o tornaram insensível para a religião – e também com a mãe e a mulher (Ayumi Fujimura), tornando-o detestável para o público logo de início. Uma tragédia pessoal o faz conhecer, ainda que vá reticente ao templo, o Mestre Rennyo (Kotaro Satomi) de quem a sua esposa tanto falava. Divulgando os ensinamentos da Terra Pura, escola fundada por Shinran Shonin (1173-1262), o Mestre tenta responder a pergunta do título aos seus seguidores, usando de metáforas para falar sobre por que vivemos, mesmo sabendo que o fim é sempre a morte.

 

Se a parábola inicial das toras serve bem neste sentido, prendendo a atenção do espectador, o didatismo em repetir várias vezes sobre o Navio do voto do Buda Amida, que representa o propósito da vida, afasta o mesmo. Curiosamente, neste sentido, Por Que Vivemos se mostra um filme para iniciados no budismo, já que, só perto da virada para o terceiro ato, é comentado sobre os diferentes budas e como a vertente da Terra Pura se diferencia por reverenciar apenas o Buda Amida. As intenções da produção claramente prejudicam o roteiro, que parece mais preocupado em “catequizar” o público pelas palavras do Mestre Rennyo em vez de fazer isso através da transformação de Ryoken em um bom desenvolvimento do personagem.

 

Por um excesso dramático que visa reforçar a mudança e a servidão do protagonista, mas que retira a sensação de urgência, a narrativa acaba tornando o sacrifício de Ryoken, no clímax, menos poderoso e, particularmente, pouco lógico para mentes ocidentais. Para esse público também fica difícil saber se a perseguição de outras vertentes mais tradicionais do budismo à Terra Pura foi como retratada na animação ou há certo maniqueísmo na representação delas.

 

O que é reconhecível para qualquer plateia são os traços característicos de anime nos personagens em 2D, que aqui se fundem à cenários que, ao fundo, emulam pinturas e conferem um aspecto poético a certos momentos do filme, que alimenta a curiosidade, mas não é capaz de nutrir a alma de respostas, ou melhor, das perguntas que movem a vida.

Por Que Vivemos (Naze Ikiru – Rennyo Shonin to Yoshizaki Enjo, 2016)

Duração: 86 min | Classificação: 12 anos

Direção: Hideaki Oba

Roteiro: Kentetsu Takamori, baseado no livro “Por Que Vivemos” de Kentetsu Takamori

Elenco: vozes de Kotaro Satomi, Katsuyuki Konishi, Ayumi Fujimura, Hideyuki Tanaka e Takaaki Seki (veja + no IMDb)

Distribuição: Espaço Filmes

 

 

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