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MOSTRA SP 2017 | Dia 14 – Narrativas cruzadas

01/11/2017

O novo filme de Laurent Cantet, A Trama (2017), encerra esta 41ª Mostra, ligando os pontos entre os temas que circularam na seleção deste ano, mas o último dia de programação ainda traz muitos filmes para serem conferidos neste finalzinho de evento.

A Trama

 

 

É catártico o fato de que o francês A Trama, o mais novo filme do diretor Laurent Cantet – diretor vencedor da Palma de Ouro em Cannes por seu Entre os Muros da Escola (2008) – e filme que encerra a 41ª Mostra de Cinema em São Paulo funcione parcialmente como um amálgama de vários temas e produções vistas ao decorrer desta cobertura. Há a rebeldia adolescente como escalada para a tragédia de O Rebanho, o processo criativo como extravasão de perigosos demônios internos de Scary Mother, os fantasmas de crises políticas e de refúgios físicos e emocionais como raízes para a decadência social, racismo e intolerância – e como isso afeta as novas gerações – vistos em produções como Human Flow, 3 Anúncios Para o Crime, O Vento Sopra Onde Quer e Sexo, Piedade e Solidão, assim como a violência que explode com isso, vista por telas de aparelhos de Happy End. Se esta obra não possui a complexidade de muitas citadas aqui, ela ao menos traça um diálogo agridoce que fecha bem estes temas.


Iniciando sua narrativa numa tela de videogame, estamos, já no início, na mente do enigmático Antoine (Matthieu Lucci), indivíduo que compõe um grupo de estudantes deslocados, de diversas etnias e classes sociais, selecionados para um workshop ministrado por Olivia (Marina Foïs), uma escritora de sucesso. O objetivo: escrever, em grupo, um thriller, conectando-o à decadência de uma cidade outrora próspera, devido aos seus grandes portos de construções de navios, seja para transporte de mercadorias, lazer, pesca ou militar. É nessa germinação de ideias e no meio deste processo criativo que Antoine se destaca, expondo suas visões extremas de mundo e transcrevendo suas ânsias sociopáticas em sua escrita, que envolve assassinatos em massa do ponto de vista de seu algoz. É nesse cenário que Olivia se vê, ao mesmo tempo, assustada e fascinada por Antoine.


Conduzida como um enorme conflito que se desdobra, e se resolve, na comunicação, Cantet utiliza as reuniões em grupo destes alunos para expor suas visões de mundo intrigantes. Opiniões racistas e políticas se misturam em meio a acaloradas discussões de uma juventude prestes a se perder, enquanto o diretor realiza um intricado estudo de personagem com Antoine. Desde suas obsessões pelo primor físico tão comuns com o narcisismo habitual de um sociopata a suas sessões de videogame, em que acompanha os gameplays de Antoine através de monitores de computadores e televisões. Mais do que a tentativa de elaborar um discurso panfletário sobre os malefícios desses videogames, Cantet parece mais interessado no íntimo, nas relações sociais do problemático jovem.


O interesse é refletido em Olivia, que demonstra um fascínio temeroso por Antoine, que cresce junto com uma suposta tensão sexual entre ambos, ainda que ela negue este fato para o mesmo. Após uma discussão mais acalorada entre ambos, quando o jovem aponta defeitos na escrita de sua professora, ela o expulsa da aula, claramente atingida por aquelas palavras. Por acreditar nelas, talvez, Olivia pede a ajuda de Antoine para um de seus projetos. O que a escritora também parece negar a si mesma, no entanto, é o fato de estar, a seu próprio modo, usando Antoine, estimulando as perigosas ideias do aluno para extrair suas próprias inspirações em relação a sua escrita. Tal estímulo carrega uma desonestidade e falta de responsabilidade preocupantes, e não tarda para que Olivia acabe colhendo os frutos dessas incitações.


Se muitos podem acusar o clímax do filme como uma entrega preguiçosa ao próprio gênero do thriller, abandonando as discussões de ideias e caminhando para um desfecho mais usual, isso pode representar uma ingenuidade em relação aos temas abordados. Ao se entregar a essência deste gênero, Cantet encontra a catarse. Os elementos estão lá: a arma, o sequestro, os jogos mentais de gato e rato. O thriller que Olivia escreve com os alunos sobrepuja as páginas e ganha vida. No mais, pode-se apontar também que o clímax desta história não vem com a materialização da violência – que possui a bela, trágica e poderosa imagem do jovem atirando contra a lua –, e sim no texto – ou melhor, confissão –  final de Antoine e do diretor de A Trama, que fecha seu filme, e a 41ª Mostra de SP, com o elemento mais necessário no melancólico e desumano mundo atual: o diálogo.

 

Veja o trailer

 

CINEARTE 1

01/11/17 - 20:00 - Sessão: 1296 (Quarta)

O Rebanho

 

Em O Rebanho, segundo longa do argentino Sebastián Caulier, o diretor procura encontrar ligações entre a raiva e sensação de inadequação social vindas com a adolescência e como a falta de discernimento e responsabilidade, que são naturais em tal período, podem ter efeitos mais graves. Se a ligação destes temas pode sugerir um texto sensacionalista, Caulier tem sucesso ao jamais percorrer estes caminhos, trazendo, ao invés, uma visão interessante sobre os temas que propõe.


Tendo como protagonista e narrador da história um jovem estudante inseguro e deslocado, O Rebanho acompanha o desenrolar da amizade do adolescente com um garoto também excluído e suscetível à sociopatia, numa relação simbiótica de rebeldia que representa uma bomba relógio de tragédia prestes a explodir.


Já abordado em algumas obras que exploram como a falta de humanidade, comunicação e a pressão pela integração social afetam mentes perdidas e suscetíveis à atos violentos, o tema ganha novo contexto neste filme, que, em vez de se apegar à histórias reais (como o excelente Elefante, de Gus Van Saint), abraça um tom mais convencional de thriller, ao passo que passeia pontualmente por outros gêneros, como um interessante coming of age – retrato da passagem da adolescência para a vida adulta – colegial.


Assim, uma rixa banal com um professor de educação física resulta num ato de rebeldia anárquica, e a cena do primeiro ato dos jovens, intensa e embalada com acordes de música punk, serve de ótimo contraste com as ações seguintes, cada vez mais perigosas e sem o senso de deslumbramento contida nessa cena inicial.


Utilizando ovelhas como parte de sua simbologia, O Rebanho tem sucesso ao misturar drama adolescente, suspense e até um tímido coming of age, em temas que acabam se fundindo muito bem nesta obra que utiliza a passageira raiva adolescente como via para tragédias maiores.

 

Leia a entrevista com o diretor de O Rebanho, Sebastián Caulier

 

ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 4

01/11/17 - 19:50 - Sessão: 1370 (Quarta)

Tenha um Bom Dia

 

As ruas e aposentos da pequena cidade na qual se passa um dos destaques do Festival de Berlim, a animação chinesa Tenha um Bom Dia, estão a todo momento preenchidos por pôsteres de filmes, cartazes de games e referências à cultura pop, sobretudo ocidental. As figuras que a habitam, criminosos, delinquentes e perdedores, todas singulares e exóticas, transformam cada diálogo do cotidiano num destrinchamento de algum aspecto social e cultural do mundo contemporâneo, e as infelizes coincidências que os fazem ter os caminhos cruzados são tão cômicas quanto trágicas.


Tenha um Bom Dia poderia muito bem se contentar em ser apenas mais um desses exercícios de estilo genéricos influenciados pelo cinema de Quentin Tarantino e dos irmãos Coen, com seus diálogos espertinhos, personagens excêntricos, numa comédia negra de erros, mas ele acaba sendo mais interessante do que parece, em suas referências que ganham uma nova dimensão decorrentes do local em que se passam.

 

Aqui, tais imagens representam todo um ideal cultivado pela influência de uma cultura intrusa nessa pequena cidade chinesa. Seus personagens discutem, bêbados, sobre começar um novo negócio, fazer um "dinheiro fácil''. "Bill Gates e Mark Zuckerberg largaram a faculdade", diz um deles. Um assassino de aluguel – fã de Rocky Balboa – recebe uma ligação sobre investimento de propriedade. No rádio de seu carro, ouvimos parte de um dos discursos auto-congratulatórios pós-vitória de Donald Trump.

 

E chegamos ao nosso protagonista, o motorista Xiao Zhang, que rouba 1 milhão de yuans de seu chefe, porque sua noiva precisa corrigir uma cirurgia plástica que deu errado. No grande esquema, Xiao Zhang é quase um McGuffin junto com a mala de dinheiro, já que passa a maior parte dos curtos 77 minutos de projeção desacordado, enquanto as personalidades que habitam esse universo tentam de alguma forma encontrar o dinheiro, com paradas ocasionais para conversarem sobre seu desejo de irem embora daquele lugar ou sobre O Poderoso Chefão.

 

O fato de que a exibição de Tenha um Bom Dia no Annecy International Animated Film Festival tenha sido vetada pelo governo chinês diz muito sobre a produção, que evidencia um lado que contradiz a ideia de prosperidade associada com o país, que já censurou, inclusive, um dos artistas de destaque desta 41ª Mostra, Ai Weiwei, responsável pelo cartaz e pelo filme de abertura desta edição, Human Flow.


Com uma animação de menos frames por segundo, quase precária, que ao invés de prejudicar a obra apenas atribui um ritmo mais cadenciado e até mesmo uma áurea de estranheza que funciona, o destaque da produção acaba sendo mesmo suas situações irônicas e comentários que tece em relação aos ideais corrompidos de seus decadentes habitantes.


Mesmo que não se aprofunde demais nestes temas, a animação Tenha um Bom Dia, escrita e dirigida por Liu Jian, evidencia o efeito prejudicial que o tal do "Sonho Americano" pode ter nas regiões mais desprivilegiadas, como se a cultura pop oriunda do país por si só fosse o suficiente para corromper indivíduos que idealizam erroneamente estes ícones, independente da nação em que se encontrem. E qualquer obra que pare para um interlúdio musical que relata sarcasticamente o desejo que seus personagens possuem de se mudar para outro lugar e começar uma nova vida em uma terra de maiores oportunidades – a coroa do American Dream – merece um mínimo de atenção.

 

Veja o trailer

 

MIS - MUSEU DA IMAGEM E DO SOM

01/11/17 - 16:50 - Sessão: 1387 (Quarta)

 

A Tartaruga Vermelha

 

*Texto publicado originalmente no lançamento comercial do filme

 

Após passar por Cannes, onde ganhou o prêmio especial do júri na mostra Um Certo Olhar (Un Certain Regard), e no Anima Mundi do Rio, A Tartaruga Vermelha, produção franco-belga com participação dos japoneses do Studio Ghibli, chega ao Oscar deste ano figurando como o mais alternativo dos indicados à Melhor Animação. Não apenas por ser um filme sem diálogos em seus 80 minutos de duração, mas pela natureza de sua história de tom fabular e reflexivo nas possíveis leituras originadas da simplicidade narrativa de Michael Dudok de Wit.

 

Trata-se do primeiro longa do diretor e animador holandês, que dirigiu quatro curtas antes, dentre eles, Father and Daughther (2000), pelo qual já ganhou um Oscar. No breve retrato da filha à espera da volta do pai que tanto amava, o realizador apresentava a mesma predileção vista aqui em falar sobre o fluxo da vida. O nascer, crescer, encontrar um amor, ter filhos, educa-los, vê-los partir e envelhecer até o final exprimir um significado de retorno deste ciclo.

 

Esse caminho guia o novo trabalho, que traz sua fábula autoral, roteirizada por ele e Pascale Ferran, sobre um naufrago que, após muito lutar para sair da ilha deserta onde foi parar, se apaixona por uma tartaruga vermelha que se transforma em mulher. A animação, que começa com o homem à deriva em um mar turbulento, não revela o nome nem o passado do personagem: ele é uma folha em branco que ressignifica sua própria vida naquela porção de terra, assim como o lugar se modifica a partir dele, sendo o grupo de caranguejos o melhor exemplo. Talvez, justamente por isso, seja tão fácil se identificar e se angustiar junto com esta figura quando ele cai de um penhasco e fica preso em uma caverna cheia de água e aparentemente sem saída, que serve na trama como uma espécie de rito de passagem.

 

Apesar do Studio Ghibli apenas colaborar na produção e não da equipe de animadores franceses e belgas, seu trabalho parece ter influenciado os colegas europeus. A obra tem certo ar oriental que vai além da floresta de bambus presente na trama e que se observa na calma e reflexões suscitadas pela narrativa. Os traços e o minimalismo também são vistos nos aspectos técnicos desta animação, que por trás do despojamento de seu 2D, traz um incrível uso da incidência da luz sobre os cenários durante o longa: desde a escolha certeira de dar tons de cinza nas cenas noturnas, deixando a produção em preto e branco nestes momentos, até as cores dadas nas sequências ao entardecer, com o sol poente, ou na breve passagem no amanhecer, com o céu iluminado pelo sol prestes a nascer.

 

Da mesma maneira a produção que ganhou o Annie, prêmio mais importante do gênero, como Melhor Animação Independente usa de uma simples história para abrir um amplo leque de interpretações. Talvez, teológicas com essa espécie de Adão e Eva? Filosóficas com uma ideia lockeana de tábula rasa? Sociológicas quanto à relação com a família ou psicológicas nas projeções do personagem? Mas o interessante de A Tartaruga Vermelha é que todas essas suposições caem quando o próprio filme pede para o espectador se deixar levar pelos seus pensamentos mais abstratos.

 

Veja o trailer

 

CIRCUITO SPCINE QUINTA DO SOL          

01/11/17 - 15:00 - Sessão: 1334 (Quarta)

CIRCUITO SPCINE JAMBEIRO               

01/11/17 - 15:00 - Sessão: 1319 (Quarta)

CIRCUITO SPCINE VILA DO SOL            

01/11/17 - 15:00 - Sessão: 1340 (Quarta)

CIRCUITO SPCINE TRÊS LAGOS             

01/11/17 - 15:00 - Sessão: 1338 (Quarta)

CIRCUITO SPCINE SÃO RAFAEL             

01/11/17 - 15:00 - Sessão: 1336 (Quarta)

CIRCUITO SPCINE PARQUE VEREDAS         

01/11/17 - 15:00 - Sessão: 1327 (Quarta)

CIRCUITO SPCINE PERUS                   

01/11/17 - 15:00 - Sessão: 1332 (Quarta)

CIRCUITO SPCINE JAÇANà                

01/11/17 - 15:00 - Sessão: 1317 (Quarta)

CIRCUITO SPCINE CAMINHO DO MAR         

01/11/17 - 15:00 - Sessão: 1315 (Quarta)

CIRCUITO SPCINE BUTANTà               

01/11/17 - 15:00 - Sessão: 1313 (Quarta)

O Vento Sopra Onde Quer

 

O excêntrico é sempre bem-vindo. O Cinema é uma arte que, ao decorrer das décadas, apenas expande suas possibilidades narrativas, e a forma que cada artista escolhe para contar sua história pode engrandecer ou obliterar a qualidade de sua obra. O incomum, o experimental e o estranho podem ganhar voz nas mãos de cineastas talentosos. Em determinado momento do sueco O Vento Sopra Onde Quer, acompanhamos, através de técnicas de pintura e stop-motion, o cotidiano de uma enguia presa num poço, do ponto de vista da mesma. Se uma produção que reserva um tempo para o monólogo de um peixe chamaria normalmente a atenção, o filme de Kim Ekberg acaba por se perder justamente em suas excentricidades.


O filme escolhe o fim de um relacionamento para dar partida ao seu road movie social, dividido em capítulos. Após ser abandonada por sua namorada, a jovem escritora Elma (Mira Eklund) parte numa viagem pelo interior da Suécia. Mais do que estudo de personagens ou qualquer aprofundamento dramático, O Vento Sopra Onde Quer adota uma narrativa de devaneios, onde a divisão em capítulos acaba atribuindo ainda mais esse caráter episódico à trama. Em cada passagem, Elma conhece figuras mundanas do cotidiano, cada uma com suas próprias idiossincrasias. Nessa lógica, é até natural que a protagonista não possua algum tipo aprofundamento maior, já que é apenas uma passageira, uma observadora que encontra naquelas casas e abrigos um lugar para temporariamente chamar de lar.

 

Nestes lugares, a cortina do palco se abre para os "astros" de cada capítulo, cada um simbolizando uma parte, social ou etária, da Suécia. O abrir da cortina no caso é literal. Num exemplo das escolhas excêntricas e sem muito propósito de Ekberg, acompanhamos duas garotinhas atuando numa peça sobre a perda da infância e as dificuldades de se viver numa Suécia decadente. Tal passagem, com a cabeça flutuante da platéia contra as estrelas, num green screen, acaba soando, como o monólogo da enguia, deslocado e sem propósito, já que, excessivamente literais, acabam se tornando pedantes.


No fim, fica claro que o diretor Kim Ekberg quer dizer algo sobre a decadência social da Suécia, o problema da imigração, do crime crescente e como isso afeta todas suas gerações. Porém, sem um fio condutor conciso, temos apenas uma série de colagens excêntricas que, eventualmente, se diluem, colocando o sueco O Vento Sopra Onde Quer naquelas listas de filmes que muito querem falar, mas acabam por nada dizer.

 

ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 4

27/10/17 - 17:20 - Sessão: 843 (Sexta)

PLAYARTE SPLENDOR PAULISTA

01/11/17 - 19:40 - Sessão: 1398 (Quarta)

 

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