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O ESTRANHO QUE NÓS AMAMOS | Só outro ponto de vista

11/08/2017

 

Todo filme, assim como qualquer obra de arte, está sujeita a avaliações por suas escolhas artísticas, mas os remakes talvez sejam aqueles que mais sofrem com comparações e (muitas vezes, pré-)julgamentos. Pela primeira vez em sua carreira, a cineasta Sofia Coppola se arrisca neste território, embora O Estranho que Nós Amamos (2017) seja menos uma nova versão do filme homônimo de 1971, e sim, outra adaptação do livro A Painted Devil, escrito em 1966 por Thomas Cullinan, que surge como uma resposta à contundente obra cinematográfica de Don Siegel. Não daquelas que necessariamente contradizem o que foi dito anteriormente, mas que complementam apresentando mais uma perspectiva sobre a trama deste romance gótico sulista, exemplar de um gênero literário que usa elementos macabros e/ou violentos como ironia e forma de crítica social dos valores locais.

 

No entanto, o sexto e novo longa da diretora premiada neste ano em Cannes – apenas o segundo prêmio dado a uma mulher na direção, durante toda a história do evento – enfrentou mais críticas nos últimos meses, no lançamento nos Estados Unidos, por outro motivo. Ao recontar a história do soldado ianque que, durante o final da Guerra Civil Americana, é socorrido e levado para um internato só de moças na Virgínia, Sofia evita colocar a discussão racial em pauta, suprimindo a personagem da escrava negra, presente no romance e no filme setentista, com a ótima Hallie, interpretada por Mae Marcer. A escolha que se tornou polêmica para alguns é estranha justamente pelo fato da escravidão ter sido o motor deste conflito entre o Norte e o Sul dos EUA entre 1861 e 1865, mas também fica o questionamento se é melhor não retratar essa questão do que trazê-la superficialmente ou de uma maneira errada, sabendo que a cineasta costuma restringir o escopo de suas obras ao ponto de vista de suas protagonistas, fazendo disso uma marca.

 

Nas entrelinhas, porém, a ausência dos escravos que fugiram, como é dito em uma fala, ainda exerce uma influência na representação da dona e diretora Martha Farnsworth (Nicole Kidman), da professora Edwina (Kirsten Dunst) e suas cinco alunas restantes, que, neste momento, são obrigadas a fazer o trabalho que antes designavam aos negros e, distantes dos grandes bailes que movimentavam a região antes da Guerra de Secessão, a mansão abandonada e suas garotas brancas se tornam o retrato da falência sulista, cuja derrota já estava iminente naquelas batalhas finais.

 

É sob a perspectiva dessas mulheres de diferentes idades que Coppola constrói seu longa, enquanto Siegel impõe uma visão masculina, não necessariamente machista, sobre os impulsos sexuais femininos. Isso resulta em traços mais exagerados e caricaturais nos personagens da produção de 1971, como a Miss Martha, vivida por Geraldine Page na ocasião, em seu tom de histeria e loucura prestes a explodir. No entanto, não significa que os desejos da educadora aristocrata, interpretada agora por Kidman, não fiquem latentes na cena em que ela dá banho no soldado inimigo (Colin Farrell) ainda desfalecido, por exemplo, tais quais o amor que Edwina sempre esperou, a paixão adolescente e sedutora de Alicia (Elle Fanning), a amizade profunda de Amy (Oona Laurence) e toda atenção das outras garotas – a pequena Marie (Addison Riecke), a emocional Jane (Angourie Rice) e a desconfiada Emily (Emma Howard) –, em vários graus, que o cabo John McBurney despertou nelas, em meio àquele isolamento. A diferença é a sutileza pela qual a cineasta decide optar.

 

Além de conferir mais camadas a todas as meninas do internato, o roteiro de Sofia, aliado a sua direção e ao trabalho do elenco, consegue transmitir todos os sentimentos das personagens pelo “intruso”, sem fazer uso de um recurso literal como a exposição do pensamento delas em off, como no filme anterior. E se lá, Don Siegel trazia uma interessante oposição do discurso do ianque com as imagens do que ele realmente fazia durante a guerra, aqui a diretora prefere o caminho da dubiedade para esta figura masculina. “O Seduzido” do título original adapta a sua fala para cada uma das mulheres ou meninas com quem lida, sendo esse irlandês que luta pelo Norte encarnado por Farrell mais discreto nisso do que o McBurney de Clint Eastwood, pois se assemelha mais a um animal usando estes artifícios para sobreviver do que um caçador que se vê, depois, encurralado pela própria caça, como em 71.

 

A discrição de Coppola também se vê na direção, cuja maior ousadia aparente é sugerir em alguns planos que alguém está as observando, colocando o próprio público nesta posição, e a decisão mais surpreendente é justamente ir contra o seu habitual uso de uma trilha sonora pop e contemporânea até nos registros históricos, como fez em Maria Antonieta (2006), uma das parcerias da diretora com Kirsten Dunst, com quem também trabalhou em As Virgens Suicidas (1999), as duas obras que mais se encontram ecos neste novo trabalho dela. A trilha de Laura Karpman e do grupo francês Phoenix – cujo vocalista é marido de Sofia –, inspirada em Magnificat de Claudio Monteverdi, se alia a músicas da época da Guerra Civil, a exemplo de Aura Lee e Virginia Belle.

 

Por isso, quando o longa abre com uma garota cantando Lorena no meio de um bosque, a canção favorita dos soldados de ambos os lados, com saudades de casa e de suas mulheres e namoradas, remete ao período histórico ambientado, mas o cenário das barbas-de-velho, também conhecido como musgo espanhol, se apoiando nas árvores e caracterizando a paisagem do Sul dos Estados Unidos também dá o tom de fantasia da obra. Isso faz do encontro de Amy com o Cabo mais um conto de fadas, como uma Chapeuzinho Vermelho encontrando o Lobo Mal, do que os tambores viscerais que marcam a ferocidade e violência do filme de Siegel desde o início. A fantasia gótica, porém, ainda se encontra nesta paisagem exótica, no ar abandonado do local e na fotografia de Philippe Le Sourd, que além da luz natural, utiliza a luz das velas em favor da tensão da narrativa.

 

Neste sentido, vale dizer que todas essas escolhas que levam este O Estranho que Nós Amamos para um caminho diferente do outro, não se tornam melhores ou piores que o anterior; só fazem deles filmes igualmente eficientes na visão que cada um tomou para si. Na realidade, a única decisão que se pode questionar é a dos trailers da nova produção “venderem” desde o início do ano um suspense, enquanto o novo esforço de Sofia Coppola é menos um thriller e, ao mesmo tempo, mais que isso.

O Estranho que Nós Amamos (The Beguiled, 2017)

Duração: 93 min | Classificação: 14 anos

Direção: Sofia Coppola

Roteiro: Sofia Coppola, baseado no roteiro do filme “O Estranho que Nós Amamos”, de 1971, de Albert Maltz e Irene Kamp e no livro “A Painted Devil / The Beguiled” de Thomas Cullinan

Elenco: Nicole Kidman, Colin Farrell, Kirsten Dunst, Elle Fanning, Oona Laurence, Angourie Rice, Addison Riecke e Emma Howard (veja + no IMDb)

Distribuição: Universal Pictures

 

 

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