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PLANETA DOS MACACOS: A GUERRA | A épica saga símia do inferno ao paraíso

04/08/2017

 

“Um filme para os nossos tempos”, ressaltava com veemência o ator Andy Serkis durante a coletiva de imprensa, na última terça (01) em São Paulo, na sua visita ao Brasil para a divulgação de Planeta dos Macacos: A Guerra (2017). O intérprete do protagonista, o macaco César (ou Caesar, no original), frisava a importância da mensagem da obra sobre ver os outros sem julgamento e de todo o universo criado a partir do romance de ficção científica O Planeta dos Macacos, escrito por Pierre Boulle em 1963, sobre a empatia em relação a outras culturas e sociedades ou diferentes pessoas e discursos. É a espécie de comentário social que, segundo o inglês, vem desde o longa original de 1968 e explica o porquê dessas histórias sempre estarem voltando nos últimos 50 anos, pois aí está a beleza “na metáfora de usar macacos para ver nós mesmos”.

 

Se a produção dirigida por Franklin J. Schaffner e estrelada por Charlton Heston iniciaria, no final dos anos 60, uma franquia de ficção científica pioneira, o blockbuster de Matt Reeves é o terceiro capítulo da nova série cinematográfica, misto de reboot – recomeço da trama – e prequel – acontecimentos anteriores –, que é fruto desta era em que o modelo da saga antiga se tornou regra, e de certa forma, uma muleta em Hollywood. O próprio Serkis admite que as franquias podem ser exaustivas quanto às suas fórmulas, mas a trilogia Planeta dos Macacos dos anos 2010 se destaca justamente pela sua rara consistência neste cenário atual, com suas propostas de alegorias sobre a condição humana.

 

Em Planeta dos Macacos: A Origem (2011), o público viu como César e outros macacos tiveram seus QI’s aumentados em laboratório, depois de uma malsucedida experiência de uma pesquisa para a cura do mal de Alzheimer, que também criou um vírus praticamente mortal aos seres humanos. Os resistentes à “gripe símia” se tornaram os sobreviventes que, no segundo filme, travam um embate com a sociedade de primatas que vive nas florestas do norte da Califórnia, liderada pelo antigo amigo do cientista Will Rodman (James Franco). Situada 15 anos depois dos acontecimentos finais do primeiro longa, a nova história é uma continuação dos conflitos iniciados por Koba (Toby Kebbell), após o “golpe de Estado” do bonobo que era braço-direito do líder em Planeta dos Macacos: O Confronto (2014) e que, mesmo morto, ainda assombra o protagonista em A Guerra, por ter ido contra o seu próprio mandamento de que “macaco não mata macaco”. Um acontecimento deste terceiro episódio igualmente faz César ir contra seus princípios, já que, pela primeira vez, perde justamente a empatia que tanto o caracterizava, diz o ator.

 

 

Capturando além dos movimentos

Foto: Mauricio Santana (Divulgação)

 

Ao longo de sua carreira, Serkis se especializou nas performances de personagens por captura de movimentos e, obviamente, o tema foi muito abordado durante a coletiva. E a primeira coisa que o ator quis deixar claro é que se trata de “uma tecnologia e não um gênero ou tipo de atuação”. Isso porque o inglês tem batalhado há anos pelo reconhecimento disso por membros mais velhos da Academia, BAFTA e outras entidades de classe que são contra a inclusão de performances do tipo em premiações como o Oscar e similares. “Se eu fizer com maquiagem protética (com prótese) e figurinos especiais, pessoas diriam: ‘isso é atuação’”, exemplificou Andy, que disse ser frustrante esta ignorância.

 

Por isso, ele destacou tanto aspectos de sua interpretação aos jornalistas, como as alterações físicas de César no decorrer da trilogia, pois, apesar da pesquisa e observação do comportamento dos animais em zoológicos e vídeos no YouTube, trata-se de espécies evoluídas. Há o jovem enérgico do primeiro filme, a mudança da posição de mãos no segundo e ganho de peso na movimentação dele no terceiro – de certo modo, pode se dizer que o luto o deixa mais “carregado” neste último – junto às mudanças emocionais. No início, Serkis considerava o personagem um “humano na pele de um macaco”, além de uma criança prodígio; na sequência, se inspirava em Nelson Mandela como exemplo de líder que busca uma sociedade igualitária; e no mais recente trabalho, preferiu olhar mais internamente para extrair sua atuação. Também houve a preocupação em fazê-lo usar a linguagem de maneira crível, começando pelas primeiras palavras, depois as buscando ao falar e, agora, elaborando discursos mais eficientes e emocionantes, em uma evolução que o ator demonstrou à imprensa, imitando a voz do chimpanzé.

 

Contudo, não deixou de contar sobre como a tecnologia na captação de movimentos evoluiu nestes mais de 15 anos. Nos três filmes de O Senhor dos Anéis, ele encenava com os colegas no set e depois gravava tudo de novo em um estúdio especial, com câmeras 360°, mas, no King Kong (2005) do mesmo Peter Jackson, a captura facial veio facilitar o trabalho dos animadores que, antes, tinham de copiar “manualmente” as expressões que ele fazia. E se, em As Aventuras de Tintim (2011), as câmeras ficaram livres e melhoraram a performance, o que dizer da inovação de Planeta dos Macacos ao filmar em tempo real a captura, junto com os outros atores no set, sem ter que repetir o processo. Da mesma forma, Andy ressalta a progressão dos efeitos visuais, na criação dos olhos, pele e pelos dos animais ou da neve, por exemplo.

 

Portanto, o inglês vê um grande futuro dessa tecnologia, pois permite ao artista atuar em blockbusters, videogames, séries, realidade virtual ou mista e até em montagens teatrais como a de A Tempestade, de William Shakespeare, que fez com a sua companhia neste ano, em que a captação fez avatares voarem e hologramas aparecerem no palco. E a experiência que adquiriu nestes anos, especialmente com Jackson, ele colocará em favor de sua empreitada como diretor, com Jungle Book (2018), uma versão diferente daquela da Disney e mais próxima do livro de Rudyard Kipling, em que usa a técnica para colocar a fisionomia dos intérpretes em outros animais que não macacos, afirmou Serkis, empolgado ao dar o exemplo de Christian Bale no papel da pantera Bagheera. Antes, porém, o primeiro longa dele na função a ser lançado será Breathe (2017), a história real de um casal, vivido Andrew Garfield e Claire Foy, que lutou para mostrar que paralisados com dificuldade para respirar poderiam viver fora do hospital, selecionada para os festivais de Toronto e Londres. Nos próximos projetos, contudo, ele não descarta a possibilidade de voltar a franquia de que tanto gosta e declara que, um diretor e um novo personagem que fizessem sentido para ele estivessem em jogo em uma provável continuação, ele retornaria à saga símia.

 

 

Muitas espécies de filmes em uma só direção

Foto: Mauricio Santana (Divulgação)

 

Serkis, aliás, não deixou de render elogias à Matt Reeves como um incrível diretor de atores, que nunca grava sem ensaiar nem deixa a tecnologia distrair da performance, sempre valorizada em seus planos. No entanto, ao assistir A Guerra, esse interesse do cineasta parece preceder à narrativa. O primeiro A Origem, de Rupert Wyatt, é um filme menor, não só em tempo, mas em foco, e por isso o mais coeso da trilogia; enquanto Reeves intensifica as alegorias e subtextos raciais, sociais e políticos em O Confronto e, mais ainda, na nova sequência, mas nem sempre conseguindo imprimir o mesmo ritmo e eficiência ao abordar todas as ideias das quais quer falar.

 

O roteiro dele com Mark Bomback já dá indícios da repetição de informações que virá em diálogos expositivos logo na abertura com toda a explicação inicial para quem não viu os longas anteriores sendo colocada em forma de texto no GC, sem usar um recurso narrativo como as reportagens no segundo capítulo. E se, nesta trama, os humanos já dão sinais de estarem perdendo a fala como resultado do avanço de uma mutação do vírus original, acentuando a inversão de papéis entre eles e os símios, é possível observar que eles também foram reduzidos no desenvolvimento de seus personagens. Embora Andy tenha dito sobre os tons de cinza que caracterizam todas as figuras na trilogia, nem como somente boas ou más, a construção não tão maniqueísta da figura d’O Coronel (Woody Harrelson) não chega a ser tridimensional como a dos macacos, que juntos são mais fortes, como diz seu lema. Trata-se também de um filme essencialmente masculino, em que as fêmeas, sejam de qual for a espécie, não têm direito de guerrear, muito menos ganham destaque na história, o que chega a ser curioso não apenas pelas discussões atuais de gênero em Hollywood, mas muito mais pelo fato de que as personagens femininas já tiveram importância no livro e no filme original.

 

Dos nossos tempos, além de suas discussões e do uso de tecnologia avançada, a produção também apresenta essa colagem de referências em um hibridismo de gêneros bem acentuado, que, às vezes, Reeves sobrecarrega sem aprofundar. A primeira cena dessa ficção científica traz as inscrições nos capacetes que remetem a Nascido Para Matar (1987), enquanto outro clássico sobre a Guerra do Vietnã do qual o diretor bebe muito, Apocalipse Now (1979), é citado em grafite. A outra inspiração também comentada por Andy é a dos faroestes, evidente logo depois, na busca por vingança que César se joga ao avançar rumo ao norte, sob a neve – as gravações foram realizadas no inverno canadense, em 2016 –, ao lado de seus fiéis companheiros, como Maurice (Karin Konoval), o personagem mais carismático da trilogia.

 

Em seu caminho, surgem para acompanhá-los a menina Nova (Amiah Miller, garota que antes fizera uma participação em Quando as Luzes se Apagam, de 2016), em um fan service que remete, junto com a presença do filho Cornélius (Devyn Dalton), às figuras do romance e da franquia antiga. Ela também traz a lembrança das histórias das garotas indefesas que precisam ser protegidas por valentões, assim como o Macaco Mau (Steve Zahn, cuja presença no set foi motivo de alegria para o colega inglês), ex-atração de um zoo que se tornou um pessimista que coleciona coisas para não se sentir sozinho, serve como único alívio cômico da trama. Depois, o compasso da narrativa leva o público para um clássico filme de guerra, especialmente da II Guerra Mundial, com o conceito de um holocausto símio no campo de concentração de trabalhos forçados onde os primatas são obrigados a construir, não A Ponte do Rio Kwai (1957), mas um muro para um líder norte-americano excêntrico – qualquer semelhança com a realidade (alguém disse Trump?), não é mera coincidência. Na cena final, triunfal em intenção, mas nem tanto em efeitos no espectador, fica claro que há também um quê de épico bíblico na figura de César como um patrono sofredor e redentor tal qual Moisés.

 

Neste caldeirão, a guerra até aparece de forma pungente, mas pulverizada em um longa que instiga a reflexão, na esteira das discussões políticas e sociológicas que fazem parte do DNA da franquia. O extremismo abordado no segundo segue de outras maneiras neste episódio, enquanto uma sociedade igualitária é vista nos símios como guerrilheiros da floresta e uma insurgência de caráter quase neonazista do Coronel norte-americano defende a supremacia dos indivíduos “intactos” na humanidade sobrevivente. E quando dois grupos de humanos se enfrentam em batalha, com os macacos ali no meio, a natureza vem dizer que é maior que tudo em uma cena muito impactante. O curioso é como, neste questionamento filosófico, a trilogia leva o público a se compadecer mais pelos primatas humanizados do que pela própria espécie. Por isso, ao comentarem com Andy Serkis como era difícil olhar para um macaco sendo atingido e morto, o ator não deixa de assinalar o quanto a sensibilidade maior a esta imagem do que a de um ser humano na mesma situação “diz muito sobre nós”.

Planeta dos Macacos: A Guerra (War for the Planet of the Apes, 2017)

Duração: 140 min | Classificação: 14 anos

Direção: Matt Reeves

Roteiro: Mark Bomback e Matt Reeves, baseado nos personagens de Rick Jaffa e Amanda Silver e no livro “O Planeta dos Macacos” de Pierre Boulle

Elenco: Andy Serkis, Woody Harrelson, Steve Zahn, Karin Konoval, Amiah Miller, Terry Notary, Ty Olsson, Michael Adamthwaite, Toby Kebbell, Gabriel Chavarria e Judy Greer (veja + no IMDb)

Distribuição: 20th Century Fox

 

 

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