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DUNKIRK | A ópera bélica dos sobreviventes

28/07/2017

 

Os tiros que ecoam logo na abertura de Dunkirk (2017) não são os primeiros sons do novo filme de Christopher Nolan, mas são eles que despertam a plateia, tão distraída naquele início de sessão quanto os soldados na tela, andando por uma cidade vazia em ruínas. Os estampidos parecem tão próximos que a imersão é imediata e logo o público está correndo do fogo cruzado junto com aqueles combatentes, até restar apenas um, o jovem sobrevivente chamado nos créditos de Tommy, embora os nomes não sejam marcantes nesta produção por serem tão pouco citados nos raras falas presentes no longa; e talvez haja uma razão para isso.

 

Ao acompanhar o soldado com cara de garoto, vivido pelo estreante nos cinemas Fionn Whitehead, sem dotá-lo de uma identidade clara, o espectador se coloca no lugar dele escapando dos tiros e chegando à praia de Dunquerque, como é conhecida, na forma aportuguesada, a cidade litorânea francesa onde as tropas aliadas ficaram encurraladas pelas forças alemães em 1940, durante a II Guerra Mundial. Nas areias, filas e mais filas de combatentes britânicos aguardam pelos barcos que farão a retirada e retorno deles para o Reino Unido, mas atravessar a curta distância do Canal da Mancha se transforma em um pesadelo quando a volta para a casa, que eles podem ver dali, se torna mais distante, devido aos ataques dos inimigos. É assim que os nazistas são designados e nunca mostrados no filme, evitando personaliza-los, pois o que importa aqui é a luta pela sobrevivência, que vai muito além de um vilão – e se fosse para designar um, seria a morte.

 

Nolan evita a exploração sensacionalista da violência da guerra para dar lugar ao olhar existencialista para esta situação extrema em que a certeza mais incerta que os humanos possuem se torna latente e onipresente. Este sentimento de urgência é transmitido não apenas pelo excelente trabalho de design de som, ouvido desde os primeiros tiros, mas pela trilha de Hans Zimmer, essencial à narrativa proposta, na qual ambos os elementos sonoros, mais do que qualquer diálogo, a constroem como uma ópera bélica ininterrupta. O compositor alemão usa o tiquetaquear do relógio, assim como fez em outros filmes do cineasta inglês, do qual é habitué tanto quanto o tempo como tema, para marcar uma corrida contra a morte, mas sem limite marcado por uma ampulheta ou peão, pois o fim está sempre iminente e pode vir a qualquer instante.

 

Com os bombardeios aéreos caindo sobre eles a cada momento, o embarque das tropas britânicas, gerenciado pelo Comandante Bolton (Kenneth Branagh, sempre shakespeariano, até em um píer) no dique de Dunquerque, fica prejudicado. Por isso, Tommy deseja sair daquela praia a qualquer custo e se une ao “calado” colega Gibson (Aneurin Barnard) e, mais tarde, a Alex (o cantor Harry Styles em seu début como ator) nessas tentativas, enquanto um traumatizado combatente (Cilian Murphy) resgatado no mar pelo Sr. Dawson (o ganhador do Oscar, Mark Rylance) se recusa a voltar para lá, quando este lhe revela que seu barco, onde se encontram seu filho (Tom Glynn-Carney) e o amigo dele (Barry Keoghan, na pele de George, personagem de nome mais marcante pela trama), é uma das várias embarcações civis requisitadas para ajudar na travessia de milhares de soldados. A ajuda vem também dos céus, onde aviões de combate ingleses, os Spitfires comandados pelos pilotos de caça vividos por Tom Hardy e Jack Lowden, tentam abater as aeronaves inimigas, em sequências de perseguição aérea que remetem à clareza e efetividade da ação de Top Gun (1986).

 

Assim, Nolan costura as narrativas de “terra”, “água” e “ar” quase ao mesmo tempo: o detalhe é que as três ocorrem em períodos diferentes – de uma hora a uma semana –, mas se cruzam em algum ponto. Neste sentido, créditos também à montagem de Lee Smith que, além da contenção da obra na bem-vinda duração da produção, com menos de duas horas, consegue dar o ritmo necessário para conferir a tensão necessária na espera do que está por vir e nos momentos limítrofes. Contudo, tanto o editor quanto o diretor se perdem na exaltação dos “heróis” no terceiro ato, tirando o foco da sobrevivência e recorrendo ao tom motivacional do gênero, que tinha evitado até então.

 

O roteiro de Christopher, o primeiro que escreve sem o irmão, Jonathan Nolan, desde Amnésia (2000), também apresenta suas fraquezas nos poucos diálogos que aparecem e na pouca sustentação que dá às interessantes dúvidas de Alex no final – apesar de mais melodramática, a trama do barco, por exemplo, traz personagens mais críveis em sua construção. Igualmente, há de se questionar a inexistência da população francesa no retrato da cidade. Se Dunkirk sustentasse apenas a visão do rapaz, talvez encontrasse uma justificativa para a omissão dos civis na lembrança do militar. Essas vulnerabilidades, porem não afetarão os fãs do cineasta que, provavelmente, se debruçarão em leituras filosóficas, sociológicas e até teológicas sobre o longa, a exemplo da cena final do avião em chamas embalado pelo discurso de Winston Churchill de que “lutaremos nas praias”, fazendo o soldado que o lê perceber que a música da guerra não vai parar – o conflito realmente só terminou em 1945, mas e a luta pela vida?

 

Claro mesmo é o quanto o filme versa sobre o Reino Unido de ontem e de hoje. A imprensa britânica, aliás, está traçando um interessante paralelo do histórico desembarque das suas forças nacionais na ocasião com o recuo de agora na sua relação com a União Europeia a partir do Brexit. No entanto, o Dunkirk de Nolan é mais uma espera aflitiva, ainda que humilhada, enquanto a mesma praia se torna um cenário caótico e mais verossímil da desolação britânica, seja a do momento ou a metáfora nesta representação, no incrível plano-sequência de cinco minutos de Desejo e Reparação (2007), em que Joe Wright sintetizava o sentimento dessa derrotada retirada.

Dunkirk (Dunkirk, 2017)

Duração: 106 min | Classificação: 14 anos

Direção: Christopher Nolan

Roteiro: Christopher Nolan

Elenco: Fionn Whitehead, Aneurin Barnard, Harry Styles, Mark Rylance, Cillian Murphy, Tom Glynn-Carney, Barry Keoghan, Tom Hardy, Jack Lowden, Kenneth Branagh e James D'Arcy (veja + no IMDb)

Distribuição: Warner Bros. Pictures

 

   

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