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SOUNDTRACK | Imortalizando trilhas na neve efêmera

13/07/2017

 

Em certo ponto de Soundtrack (2017), os dois personagens principais levam cadeiras pela imensidão branca polar e se sentam para admirar uma montanha coberta de neve. Para os espectadores mais aficionados em música, ainda mais em se tratando de um filme no qual o tema integra a história, a cena provavelmente remete à imagem semelhante que ficou marcada pelo videoclipe de Enjoy the Silence. Só que, ao invés do silêncio conclamado pelo sucesso da banda Depeche Mode, é o som que transforma o sentido da paisagem glacial e os sentimentos de Cris (Selton Mello) e Mark (Ralph Ineson) enquanto a observam, ainda que o público permaneça no vazio sonoro e desconheça a canção que escutam no fone de ouvido.

 

São em alguns momentos como esse, em que o branco do cenário se confunde propositadamente com o da narrativa, que o longa brasileiro vai na contramão da proposta de experimento do protagonista, o fotógrafo vivido por Selton Mello que procura no isolamento de uma base de pesquisa na Antártida o lugar ideal para fazer seus autorretratos – na realidade, clicados pelo estilista Oskar Metsavaht, da grife Osklen –, registrando o que está sentindo naquele instante ao ouvir tal música naquele lugar, os quais pretende colocar em uma exposição.

 

Durante a coletiva de imprensa do filme em São Paulo, na semana passada (03), Julio Uchôa disse que os diretores tinham uma concepção da trilha sonora desde a constituição do projeto. “Antes de filmar a gente tinha um site com todas as músicas, toda a trilha que o Cris teria no seu iPad [sic]. Pra dizer a verdade, esse foi um filme que eu não tive nenhum diretor musical, nenhuma trilha incidental [nenhum som foi criado para o longa]. Não foi muito simples, porque algumas delas são de compositores enfiados por esse mundo afora”, explica o produtor, contando que foram necessários dois anos para conseguir os direitos autorais.

 

Uchôa também comentou sobre os três anos de pesquisa na Antártida e na Islândia, que foram transformados na filmagem, toda realizada em um estúdio no Rio de Janeiro, graças às toneladas de neve trazidas por uma empresa que trabalha na produção de Game of Thrones (2011-). Por mais que em uma ou outra tomada no alvo descampado das geleiras antárticas, se perceba o uso do chroma key, chega a ser surpreendente imaginar que todo o filme foi rodado em Curicica, na região da Barra da Tijuca, em pleno calor carioca, e louvável o trabalho de pós-produção em criar, por exemplo, um navio quebra-gelo todo digital. No entanto, um olhar mais atento – como o do Alex Gonçalves bem alertou no Cine Resenhas – percebe a artificialidade na falta de fumaça saindo da boca dos atores.

 

Olhos de lince, aliás, eram os do personagem de Selton Mello ao explicar a sua teoria sobre como o cinema do Quentin Tarantino está interligado entre si ao Seu Jorge em Tarantino’s Mind / O Código Tarantino (2006), famoso curta da dupla 300ml. Os dois atores não só estrelam o primeiro longa dos diretores com uma bem-sucedida carreira na publicidade e que se escondem sob a curiosa alcunha, como entraram de produtores para conseguir que o projeto fosse para frente. A amizade permite que Selton brinque sobre a ausência deles na coletiva, entregando o nome dos jovens cineastas Bernardo Dutra e Manitou Felipe, apesar dos dois preferirem manter esta aura de mistério.

 

As conversas aqui entre o protagonista e o botânico interpretado pelo ator e cantor Seu Jorge, no entanto, são poucas, menos intensas e, raramente, em português, já que o inglês é o idioma universal da base de pesquisas, onde também se encontram o britânico Mark, o dinamarquês Rafnar (o sueco Lukas Loughran) e o chinês Huang (o dinamarquês Thomas Chaanhing, da série Marco Polo) – com um elenco multinacional como este, o casting foi feito pelo Skype, segundo Uchôa. É com o primeiro, o pesquisador responsável por coletar dados climáticos na região com quem divide o dormitório, que Cris trava a maioria de seus diálogos e embates que a obra levanta sobre o abismo entre a arte e a ciência. Ralph Ineson, cuja atuação no excelente terror histórico A Bruxa (2015) já se destacava, surge como contraponto ao personagem principal, na pele de um cientista que trabalha para um bem maior sem vislumbrar o reconhecimento imediato que alimenta a alma de artistas como o brasileiro recém-chegado.

 

Ao seu lado, Selton sustenta um protagonista mais enigmático, com amplos espaços em branco como o cenário em que está inserido. Completando 35 anos de carreira, o ator que começou no ofício quando criança diz, hoje, deixar de lado a preparação para sentir o inesperado como o personagem: “me interessa muito o despreparo” afirmou, apesar de confessar aos jornalistas ter pedido conselhos ao amigo Rodrigo Santoro sobre a experiência de atuar com a tela verde, que lhe a oportunidade de exercer o ofício em sua essência, pois, para ele, “a base do trabalho do ator é a imaginação”.

 

Aliás, imaginar quem é este Cris através das poucas pistas deixadas pelo roteiro sobre seu passado é o que a dupla 300ml instiga no público, que pode elaborar, tal qual Mello no curta deles, várias teorias acerca do fotógrafo – a autora deste texto, por exemplo, acredita que a cegueira da mãe do personagem seria hereditária. Mas, como o próprio intérprete afirmou, “você cria um Cris na sua cabeça muito mais interessante do que eu possa falar”, do mesmo modo que os caminhos traçados pelo espectador a partir da trilha existencialista deixada por Soundtrack vão além do imaginado pelos seus realizadores.

Soundtrack (2017)

Duração: 112 min | Classificação: 14 anos

Direção: 300ml (Bernardo Dutra & Manitou Felipe)

Roteiro: 300ml (Bernardo Dutra & Manitou Felipe)

Elenco: Selton Mello, Ralph Ineson, Seu Jorge, Thomas Chaanhing e Lukas Loughran (veja + no IMDb)

Distribuição: Imagem Filmes

 

 

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