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PIRATAS DO CARIBE | Yo-ho, yo-ho, a pirate's life for me

30/05/2017

 *Este texto contêm traços das tramas dos filmes da franquia e da vida da autora

 

Em algum momento do longínquo ano de 2004, um aparelho de DVD chegou a nossa casa e finalmente tive o prazer de, já adolescente, entrar em uma locadora de vídeos e alugar um filme pela primeira vez, depois de crescer com um vídeo cassete quebrado na estante. Naquela ocasião inédita, nos demos ao luxo de pegar duas caixinhas da prateleira de lançamentos: escolhi Procurando Nemo (2003), seguindo a preferência que tinha por animações quando dava para ir ao cinema, e Piratas do Caribe: A Maldição do Pérola Negra (2003), por uma mera curiosidade gerada pela matéria que vi na Capricho de uma menina da perua escolar que adorava o Orlando Bloom. Não sei se foi a ligação afetiva com esse momento, o fato de ambos passarem direto na Disney Channel quando o canal entrou no meu pacote de TV a cabo ou de serem simplesmente ótimos filmes, mas eles ganharam um lugar cativo na lista de favoritos daquela menina que se encantava pela sétima arte, mas ainda não sabia que iria fazer disto o seu ofício.

 

Se somente a produção da Pixar foi capaz de marcar as suas falas na minha memória péssima para coisas do tipo, o longa inspirado na atração da Disneyland criou em mim um interesse e uma fidelidade únicas com ele e com as sequências que viriam depois, mesmo quando a franquia decepcionou com suas piratarias e trapaças narrativas. Talvez, porque este não é o caso do primeiro Piratas do Caribe, que me conquistou outrora e que, agora em 2017, continua excelente em seu equilíbrio raro de aventura, comédia, romance, ação e terror dentro do resgate de um subgênero quase esquecido naquele período: os dos filmes de piratas. Revendo A Maldição do Pérola Negra depois da estreia do quinto e novo capítulo da “série”, além do espanto com a qualidade de imagem de um DVD do início da década passada e a presença nunca reparada de Zoe Saldana no elenco, fica claro como os diálogos repletos de ironia fluem naturalmente no roteiro de Ted Elliott e Terry Rossio e a direção de Gore Verbinski consegue dosar a movimentação, emoção, apreensão e comicidade nas ótimas coreografias de lutas e batalhas – o que me deixou em paz com a minha consciência pela ousadia passional de votar nele em uma lista recente de melhores de todos os tempos.

 

Cena de Piratas do Caribe: A Maldição do Pérola Negra, incluso na minha lista para o Top 300 do Filmes do Chico

 

Outro fator essencial para despertar este sentimento foi Elizabeth Swann, a garota que gostava de histórias de piratas e, desafiando sua posição como filha do governador da colônia britânica no Caribe, se envolvia em uma, não cumprindo apenas o papel da “donzela em perigo”. Se as novas gerações – não só de meninas, mas de meninos que também precisam ver além dos estereótipos “femininos” e “masculinos” mais comuns – hoje são presenteadas com Furiosa, Rey, Mulher-Maravilha e outros muitos exemplos de protagonistas inspiradoras atuais, as passadas se agarravam em qualquer personagem fora da curva, que se mostrava revolucionária dentro do contexto da época, seja da história ou da obra em si, a exemplo das diversas escritas por Jane Austen, como Elizabeth Bennet, também vivida pela mesma Keira Knightley em Orgulho e Preconceito (2005). E observar o desenvolvimento da “protegida” Srta. Swann em uma heroína, até ela se transformar no “Rei” da Confraria de Piratas, é muito gratificante por se tratar do melhor arco dentro da trilogia original.

 

Hoist the colours!

 

Aliás, expectativa não faltou para os filmes seguintes, filmados em conjunto; tanto que a continuação Piratas do Caribe: O Baú da Morte (2006) se tornou a produção de maior bilheteria da franquia, ainda que apresente certo desequilíbrio no seu tom. Entre os picos de agitação dos momentos de extremo humor físico, a exemplo da ilha dos canibais, e sequências que evidenciam a inventividade de Verbinski, como a da roda d’água, que conquistam a plateia, as cenas de Will Turner (Orlando Bloom) descobrindo uma relação paternal no meio do martírio no Holandês Voador, comandado por Davy Jones (Bill Night), criam quedas de ritmo em uma narrativa irregular, embora frenética e cativante. No entanto, o principal problema da segunda aventura é deixar uma armadilha para a terceira, ao ser uma obra de passagem com um final aberto – a ressurreição do Capitão Hector Barbossa (Geoffrey Rush) aqui, em um universo fictício em que a morte não parece ser definitiva, curiosamente lembra o boato pré-Internet de que o corpo do próprio Walt Disney teria sido congelado por criogenia e escondido justamente sob a atração que deu origem aos longas, aberta no parque temático em 1967, meses depois da morte do fundador da companhia.

 

Imagina a espera de um ano para ver o que iria acontecer só no terceiro filme. Então não se espante com o meu sofrimento de mais de duas horas para carregar esse trailer de dois minutos naquela internet discada de 56 kbps

 

Deste modo, 40 anos depois da inauguração do brinquedo, Piratas do Caribe: No Fim do Mundo (2007) chegava aos cinemas com quase três horas de duração, pois, não satisfeita em precisar amarrar todas as pontas soltas da história anterior, a produção prepara outra armadilha para si mesma, ao introduzir novas tramas. Só que ao perder tempo com a multiplicação de Jack Sparrow’s em uma exploração desgastante do personagem de Johnny Depp, temas interessantes abordados no capítulo mais sombrio da série são subutilizados, assim como diálogos que soam tão atuais – um bom exemplo é a cena em que Elizabeth se espanta com a briga generalizada entre os Lordes da Confraria, dizendo “Isso é loucura!” e é rebatida pelo louco bucaneiro: “Isso é política!”; ela responde que “Enquanto isso, nossos inimigos estão se aproximando” e Hector sentencia: “Se é que já não estão aqui”. E se a relação amorosa da realeza pirata e Will já se mostrava abalada no segundo longa, o terceiro aumenta esta abismo e falta de confiança sem trazer uma possível solução no decorrer do roteiro. Em vez disso, prefere apelar, e muito bem, no final com a cena do casamento deles no Pérola Negra, no matrimônio conduzido pelo Capitão Barbossa no meio da batalha épica do ato final, fazendo qualquer fã da série, até aqueles que cogitavam um ship entre Swann e Sparrow antes mesmo desta palavra existir, suspirar de novo com o casal dali até o pós-créditos.

 

 

Obviamente, a Disney não ia perder uma de suas galinhas dos ovos de ouro e, quatro anos depois, iria explorar todo o potencial cômico do famoso Capitão Jack Sparrow em uma nova sequência. Contudo, o erro foi pensar que a franquia produzida por Jerry Bruckheimer se resumia à excêntrica figura criada por Johnny Depp, que aumentou os maneirismos do personagem no decorrer dos anos para atender a essa demanda. Soma-se a isso a introdução de novos personagens pouco desenvolvidos que não conseguem estabelecer uma ligação com o espectador, desde uma versão feminina do agora solitário protagonista com Penélope Cruz na pele de Angelica, filha do temido Barba Negra (Ian McShane), à tentativa de romance entre o missionário de Sam Claflin e a sereia de Astrid Bergès-Frisbey, e se tem o esquecível Piratas do Caribe: Navegando em Águas Misteriosas (2011), dirigido por Rob Marshall.

 

Depois desse mergulho em águas gélidas para o público, foram necessários seis anos para retomar aquele universo, com um olhar mais caro às origens no novo trabalho. Por isso, Piratas do Caribe: A Vingança de Salazar (2017) gerou sentimentos bem contraditórios em mim durante a sessão, entre a razão de uma crítica enxergando todos os problemas no roteiro irregular – além de não inspirado, apresenta algumas falhas, como a nova origem da bússola de Sparrow, sendo que, em O Baú da Morte, a Tia Dalma (Naomie Harris) diz ter dado a Jack em uma troca – que enfraquecem o apelo visual dos noruegueses Joachim Rønning e Espen Sandberg, e as emoções de uma fã assistindo a um tributo a elementos importantes da franquia, desde a abertura com uma criança; no caso, o filho de Elizabeth e Will. Assim como seu pai no longa de 2003, Henry Turner já adulto, sendo interpretado pelo Brenton Thwaites, se encanta por uma garota independente, tal qual a sua mãe: a diferença é que a Carina Smyth de Kaya Scoledario, mesmo vindo de uma origem humilde e tendo de se virar desde cedo por ser órfã, apresenta na sua inteligência de autodidata das ciências uma força diferente da protagonista da trilogia.

 

Particularmente, ver neste quinto filme a história que sempre imaginei para o quarto tornou a experiência mais recompensadora: do que me lembro, pois tinha/tenho o péssimo habito de não botar no papel ou no computador as viagens da minha imaginação, a trama desse par romântico era a mesma, com direito a uma atriz do Brasil – e não é que Scoledario tem mãe brasileira... – fazendo a garota que teria uma ligação familiar bucaneira – só errei o alvo nos meus sonhos de roteirista. Por isso, dá para entender como, mesmo percebendo o sentimentalismo e o fan service descarado, a brevíssima aparição da Keira Knightley nesta nova produção fez esta pessoa que vos escreve, sempre discretíssima na sala de cinema, esboçar uma comemoração depois de 10 anos sem Elizabeth Swann – ainda bem que estava em uma sessão normal e não de imprensa, no final das contas.

 

Minha reação foi quase esta, só que um pouco mais discreta. Talvez, se não tivesse ninguém na sala de cinema, seria assim...

 

Não se assuste, pessoa, se eu lhe disser que voltei para a casa com os famosos acordes da trilha sonora de Hans Zimmer ecoando na cabeça, cuja dor que sentia naquele final de dia cansativo foi se esvaindo, enquanto essas lembranças vinham à mente durante a viagem de ônibus e me estimulavam a escrever este texto confessional, que não vai mudar em nada a sua vida – talvez, o foco era a minha mesmo e esse divã em forma de post não vai mais se repetir. Contudo, se essa nostalgia me fez manter os olhos no horizonte, em tempos que nos fazem sentir contra a maré, a volta de Piratas do Caribe atingiu aquele estado máximo da arte, que acontece em um espaço mínimo: a de oferecer um significado a um espectador (ouvinte, leitor, etc.) que seja, independente de sua qualidade, a qual analisamos diária e profissionalmente. E justamente voltar a sentir isso era o que precisava para continuar a refletir.

Piratas do Caribe: A Maldição do Pérola Negra (Pirates of the Caribbean: The Curse of the Black Pearl, 2003)

Duração: 143 min

Direção: Gore Verbinski | Roteiro: Ted Elliott & Terry Rossio, Stuart Beattie e Jay Wolpert

Elenco: Johnny Depp, Geoffrey Rush, Orlando Bloom, Keira Knightley, Jack Davenport e Jonathan Pryce (veja + no IMDb)

 

Piratas do Caribe: O Baú da Morte (Pirates of the Caribbean: Dead Man's Chest, 2006)

Duração: 151 min

Direção: Gore Verbinski | Roteiro: Ted Elliott e Terry Rossio, baseado nos personagens criados por Ted Elliott & Terry Rossio, Stuart Beattie e Jay Wolpert

Elenco: Johnny Depp, Orlando Bloom, Keira Knightley, Bill Nighy, Jack Davenport, Stellan Skarsgård, Tom Hollander, Jonathan Pryce, Naomie Harris e Geoffrey Rush (veja + no IMDb)

 

Piratas do Caribe: No Fim do Mundo (Pirates of the Caribbean: At World's End, 2007)

Duração: 169 min

Direção: Gore Verbinski | Roteiro: Ted Elliott e Terry Rossio, baseado nos personagens criados por Ted Elliott & Terry Rossio, Stuart Beattie e Jay Wolpert

Elenco: Johnny Depp, Keira Knightley, Geoffrey Rush, Orlando Bloom, Naomie Harris, Bill Nighy, Yun-Fat Chow, Jack Davenport, Jonathan Pryce, Stellan Skarsgård e Tom Hollander (veja + no IMDb)

 

Piratas do Caribe: Navegando em Águas Misteriosas (Pirates of the Caribbean: On Stranger Tides, 2011)

Duração: 136 min

Direção: Rob Marshall | Roteiro: Ted Elliott e Terry Rossio, baseado nos personagens criados por Ted Elliott & Terry Rossio, Stuart Beattie e Jay Wolpert e no livro “On Stranger Tides” de Tim Powers

Elenco: Johnny Depp, Penélope Cruz, Geoffrey Rush, Ian McShane, Kevin McNally, Sam Claflin e Astrid Bergès-Frisbey (veja + no IMDb)

 

Piratas do Caribe: A Vingança de Salazar (Pirates of the Caribbean: Dead Men Tell No Tales, 2017)

Duração: 129 min | Classificação: 12 anos

Direção: Joachim Rønning e Espen Sandberg

Roteiro: Jeff Nathanson, com argumento de Jeff Nathanson e Terry Rossio, baseado nos personagens criados por Ted Elliott & Terry Rossio, Stuart Beattie e Jay Wolpert

Elenco: Johnny Depp, Javier Bardem, Geoffrey Rush, Brenton Thwaites, Kaya Scodelario, Kevin McNally, Golshifteh Farahani, Will Turner e Keira Knightley (veja + no IMDb)

Distribuição: Disney

 

 

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