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FACES DE UMA MULHER | Quatro, uma ou muitas

26/05/2017

 

Uma presidiária está presente na primeira cena de um longa, cuja sequência inicial intercala a saída dela da detenção com o cotidiano de uma professora de escola primária, e algum espectador pode até pensar que a personagem de Gemma Arterton possa ser “a mulher” do título do filme. Mas, naquele momento, Tara é a antagonista de Renée em Faces de uma Mulher (2016), ao sair da prisão e procurar a docente vivida por Adèle Haenel, no colégio onde ela trabalha, em busca de um dinheiro devido de modo bem escuso, faz a protagonista reviver seu passado.

 

Daí surgem as histórias de Sandra, uma jovem que, na pele de Adèle Exarchopoulos, tem vários casos enquanto tenta se sustentar na cidade grande; Karine, interpretada por Solène Rigot, é a adolescente de 13 anos que flerta com todos, tentando se passar por uma garota mais velha, enquanto foge do pai violento; e a pequena Kiki, que, através da atuação de Vega Cuzytek, vivencia um trauma que marcaria a sua infância.

 

Uma parte da plateia vive a experiência de acreditar que se trata de um conjunto de acontecimento e olhares sobre a trajetória de quatro mulheres de diferentes idades e nomes, até perceber que o título brasileiro seria um “spoiler” para eles. Enquanto a outra parcela, atenta ou já previamente informada pelo trailer, pela sinopse ou por textos como este, assiste as tramas compreendendo como cada face daquelas representa não só um momento – infância, adolescência, juventude e maturidade quase balzaquiana –, mas um estado de espírito na vida da mesma pessoa.

 

No caso, a personagem fictícia é inspirada na história da própria roteirista, Christelle Berthevas, que repetiu a parceria de escrita que estabeleceu com o cineasta Arnaud des Pallières, em seu último trabalho, Michael Kohlhaas – Justiça e Honra (2013). Se, na ocasião, o diretor explorava a jornada de um homem em busca de sua honra, agora o faz de uma maneira mais obtusa, através de uma mulher que teve a sua retirada de si, de várias maneiras, até que ela mesma a perdesse e, a partir de então, reavalia sua própria vida para tentar reencontrá-la, assim como sua paz.

 

Por isso, a comparação da narrativa com uma matrioska, a tradicional boneca russa formada por várias peças ocas de diversos tamanhos que se encaixam uma dentro da outra, realizada por Pamela Pianezza na Variety, cabe tão bem ao filme, com uma diferença básica. Em vez das mesmas figuras, só que menores “em tamanho”, serem descobertas neste abrir de camadas do roteiro, a proposta de usar quatro atrizes diferentes para cada fase da personagem, mesmo quando uma intérprete poderia fazê-la em dois períodos de sua vida, ressalta a ideia de que uma mulher pode assumir várias faces no decorrer das transformações de sua vida – quando não, coexistem ao mesmo tempo em uma pessoa. É justamente na multiplicidade de um retrato individual obtido de forma tão consistente pelo elenco feminino que a obra de Pallières, através de seu naturalismo na direção e também na fotografia, encontra um olhar amplo para várias mulheres comuns, que também sofrem, como Kiki, Karine, Sandra e Renée, a violência e a dor em suas diversas faces.

Faces de uma Mulher (Orpheline, 2016)

Duração: 126 min | Classificação: 16 anos

Direção: Arnaud des Pallières

Roteiro: Christelle Berthevas e Arnaud des Pallières

Elenco: Adèle Haenel, Adèle Exarchopoulos, Solène Rigot, Vega Cuzytek, Jalil Lespert, Gemma Arterton, Nicolas Duvauchelle, Sergi López e Robert Hunger-Bühler (veja + no IMDb)

Distribuição: Mares Filmes

 

 

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