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THE RIDE | A nova volta de Nelly Furtado pelo alternativo

09/04/2017

 

Logo no seu primeiro single, Nelly Furtado já avisava a todos do seu espírito livre, que não se traduz apenas em suas composições, mas também na sua sonoridade sempre em transformação. Facilmente colocada na lista de “metamorfoses ambulantes” que habitam ou pelo menos passaram pelo pop, junto com Lady Gaga e Gwen Stefani, a cantora que estourou nas rádios com I’m Like a Bird, há 17 anos, explora novos gêneros a cada álbum lançado e seu novo trabalho The Ride (2017), o sexto de estúdio e de inéditas, só comprova que ela é “como um pássaro, que apenas voa por aí”.

 

Trazendo suas influências latinas ao R&B e trip hop da passagem dos anos 1990 para os 2000, a canadense filha de portugueses açorianos surgiu como uma voz alternativa na bem abrangente música pop daquele período com seu disco de estreia, Whoa, Nelly (2000). Sem alçar os mesmos números de vendas do seu début nos EUA, mas obtendo boa repercussão na Europa, Folklore (2003) foi aquele que mostrou mais suas raízes, com partes das letras em português e a presença marcante dos sons latinos mesclados com o folk – que ainda não tinha voltado à moda como hoje.

 

Mas sucesso mesmo, em grande escala, ela viria a experimentar em sua fase Promiscuous, em sua guinada total para o mainstream com Loose (2006). O álbum produzido por Timbaland, onipresente nos hits de meados da década passada, mergulhou no R&B, hip hop e na dance music e suas batidas pesadas e marcadas tornaram Furtado uma popstar. No entanto, a inquieta artista não quis continuar surfando a mesma onda e veio depois com um trabalho todo em espanhol, o romântico Mi Plan (2009), e mesmo se voltando novamente ao hip hop com The Spirit Indestructible (2012), que vai das origens do gênero com um som noventista ao toque eletrônico de hoje em dia, não conseguiu atingir o grande público.

 

Após um hiato de cinco anos, a cantora lançou, em 31 de março, The Ride pelo seu selo independente Nelstar, criado em 2009, em que parece atar os laços de seu início em uma cena mais alternativa com sua passagem pelas paradas de sucesso ao se render ao indie pop atual. Para quem não acompanhava sua carreira há anos, a primeira sensação ao ouvir o novo trabalho é a de reconhecimento, não com a superstar, mas com a Nelly dos primeiros momentos, junto com a estranheza da maneira como a bateria eletrônica e os sintetizadores moldam as faixas. Desde o disco de estreia, ela já usava elementos eletrônicos aos sons acústicos, porém, se fosse para comparar seus singles daquela obra, as novas músicas soam mais como uma extensão atualizada de Turn Off The Light do que I’m Like a Bird.

 

A razão da mudança da vez está nos créditos: o produtor John Congleton que, entre outros nomes, já trabalhou com a St. Vincent, com quem ganhou o Grammy de Melhor Álbum Alternativo em 2015. Daí o porquê da semelhança, em maior ou menor grau de pendendo da composição, da Nelly Furtado de 2017 com a sonoridade de Annie Clark: a primeira faixa Cold Hard Truth, Paris Sun, Magic, Right Road e Live, são as que mais lembram a excentricidade do encontro de pop synth com rock e jazz da cantora norte-americana conhecida pelo nome artístico de St. Vincent. Entretanto, a audição mais atenta revela, aqui e ali, outras influências e/ou similaridades que vão além da comparação mais direta com ela.

 

As estrofes iniciais de Flatline poderiam ser de uma música do Gossip com os vocais recordando os de Beth Ditto, assim como Sticks and Stones parece uma parceria dos islandeses do Of Monsters and Men com os franceses do M83 feita para a voz de Furtado. As baladas Pipe Dreams – que foi o primeiro single, divulgado ainda no ano passado –, Carnival Games e Tap Dancing ressoam como os australianos do Tame Impala em ’Cause I’m A Man. Talvez, seja forçar um pouco dizer que dá para ouvir um toque de Sinéad O’Connor também na primeira, mas as outras duas trazem batidas que evoca as das irmãs californianas do Haim, igualmente percebidas em Live.

 

Esta última traz um violão, também discreto em Magic, dando um tom acústico que remete ao passado da cantora no meio do som eletrônico predominante neste disco e fazem das duas faixas um respiro neste sentido. A ausência mais sentida nesta nova fase é da alma latina de Nelly, que já foi do fado à bossa nova e do ritmo da salsa aos toques de berimbau e triângulo, podendo ser sentida até em seu momento mais pop. Só que em termos de letra, a artista continua a conjecturar com o mesmo amor reticente de I’m Like a Bird.

 

Em The Ride, seu alter ego vive a intensidade dessa relação amorosa, mas sentindo aquilo como um momento que não se concretizará na vida diária, pois, como dizia antes, All Good Things (Come To An End). Ela externa isso em Paris Sun, no passeio na “cidade luz” ao lado do amado, que de tão perfeito parece que irá acabar. Não deseja brigar com ele e quer agradá-lo em Sticks and Stones e Tap Dancing, respectivamente, mas pede para não vender sonhos irrealizáveis a ela em Pipe Dreams – cujo videoclipe com estética de VHS vem de bônus ao final do texto – e entrega o ótimo verso, embora pessimista, “We were meant to be alone” em Cold Hard Truth.

 

Essa indecisão é traduzida em Live, que obviamente também põe a vida como outro tema que aparece de forma paradoxal nas composições: se antes ela está sem sinal de vida em Flatline e roga pelo seu amor para ressuscitá-la, aqui ela exalta sua paixão em viver. Especialmente, se for de forma simples, desprezando os “palácios em que não podemos morar” em Palaces e os ricos e poderosos nos versos de Right Road, “The high and mighty, they have fallen / On a road to hell, paved with good intentions”. A última faixa, Phoenix, vem como um anticlímax sonoro e uma letra de estímulo, destoando do resto do álbum, mas condizente com o espírito de fênix da artista, que renascendo das cinzas vem com mais uma nova e diferente investida no cenário musical.

 

E não seria nenhuma surpresa se a cantora, ao confirmar uma turnê que poderia vir para terras latino-americanas, for anunciada como atração na próxima edição do Lollapalooza: com um nome chamativo o suficiente para atrair o público em geral que a conhece da fase mais pop, a Nelly Furtado indie de agora e de tempos atrás agrada aos ouvidos da plateia hipster do festival.

The Ride (2017)

Artista: Nelly Furtado

Duração: 45:37

Gravadora: Nelstar Music Inc.

 

 

 

 

 

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