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PITANGA | Um filme primaveril em pleno outono

06/04/2017

Foto: Matheus Brant / Cartaz Divulgação

 

Pitanga (2016) é um filme familiar em vários sentidos, que vão além da ligação entre o personagem do documentário, Antonio, e uma das responsáveis pela sua realização, a filha Camila. A ideia da produção surgiu do encontro da atriz com o cineasta Beto Brant em Eu Receberia as Piores Notícias de Seus Lindos Lábios (2011), que se mostrou também uma união fraterna de almas artísticas. A partir da proposta dele em fazer um longa sobre o pai dela, os dois assumiram a direção do projeto, que teria como estrutura, inicialmente, o ator contando sua história diretamente para eles, junto aos depoimentos das pessoas que passaram por sua vida.

 

Mas logo os diretores perceberam que os encontros de seu personagem com os entrevistados, filmados entre 2013 e 2014, eram tão espontâneos que bastariam para conduzir a narrativa do documentário. Dos parentes, primeiros amigos e amores em Salvador à coleção de colegas e amizades que colecionou, na Bahia, em São Paulo e no Rio de Janeiro, durante os inúmeros trabalhos que realizou no cinema, teatro, televisão e também com ações culturais e educacionais, Antonio Pitanga vai rememorando os “causos” passados junto com eles e, assim, traçando a sua trajetória e carreira para o público.

 

Com seu jeito expansivo e falador, o baiano também ganha familiaridade com a plateia logo nos primeiros minutos de projeção, especialmente depois de seu encontro “simbólico”, segundo o próprio durante a coletiva da produção, em São Paulo na última sexta (31), com sua primeira namorada, a cantora Maria Bethânia. Como citado durante o filme, ele é uma daquelas pessoas que sabem contar a sua própria história, fazendo o espectador recordar de figuras similares, como seus pais e avós.

 

Junto, surgem os flertes, casos, namoros e casamentos que fizeram a sua fama de sucesso com as mulheres. Atualmente casado com a ex-governadora do Rio, Benedita da Silva, é o retrato de sua primeira mulher, Vera Manhães, a mãe de seus filhos Camila e Rocco Pitanga, que se torna o ponto mais obtuso do longa. Há uma preocupação genuína da família em preservar a sua figura, exaltando seus áureos tempos de atriz, mas a questão dos problemas psicológicos que a afastaram da convivência direta com eles é abordada tão brevemente que pode ser mal interpretada pela audiência mais jovem.

 

No entanto, isso é um leve desvio dentro de uma obra que habilmente faz um painel histórico-cultural do país a partir do resgate de uma célebre figura das artes no Brasil. Premiada pela crítica na última Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e pelo público no Festival de Tiradentes deste ano, Pitanga é eficiente ao traçar o caminho de Antonio junto à história do cinema brasileiro e da cultura nacional, assim como o papel importante do negro em ambas e seu eco em discussões atuais.

 

Protagonista na telona desde seu início de carreira, nos anos 1960, o ator afirma que “o Brasil faz o melhor cinema do mundo” e a sétima arte é destacada ao longo do documentário através das imagens de arquivo que levam à plateia ao conhecimento da produção cinematográfica na Bahia, em um primeiro momento, indo a uma escala nacional com o Cinema Novo. A coleta desse material foi trabalhosa, pois o “desmonte da Cinemateca”, segundo Brant, dificultou a pesquisa e uso de trechos das películas estreladas por Pitanga, fazendo com que a pós-produção fosse a fase mais demorada do projeto. O esforço, porém, rende momentos incríveis dentro desse registro do ator, a exemplo da potência, beleza e lirismo de cenas como as de A Grande Cidade (1966), de Cacá Diegues, na sua corrida no meio da rua da abertura ou sua performance em pleno Aterro do Flamengo no encerramento.

 

Esse espírito leve, do capoeirista em movimento, o homem, que hoje tem 77 anos, traz de sua origem. “Jovens desenhando um Brasil que a gente queria”, mesmo em uma Bahia racista, indo da ditadura de Vargas para a de Castelo Branco, estavam todos “juntos num corpo só”, ele relembrou durante a coletiva. Por isso, o filme é solar e capta o despertar do movimento negro no país, reverberando as lutas pelos direitos civis de Martin Luther King e Malcolm X nos Estados Unidos. E, pra não dizer que não falei das flores, o próprio retratado ressalta, em uma fala no longa, que havia uma a presença marcante dos negros nas artes e em outros pontos estratégicos da sociedade brasileira naquele momento.

 

Os tempos agora são, em um ponto, de colheita desses frutos com a ideia do empoderamento sendo sentida, por exemplo, na “nova” Luiza Maranhão com cabelo natural e não alisado – sem encontrar a atriz de Barravento (1962), os diretores viram em uma transeunte a alma e o jeito da antiga colega de Antonio e, como “nem tudo é tão premeditado, desenhado”, disse Camila na sua exaltação da sensibilidade, eles usaram a moça na recriação da cena do filme de Glauber Rocha. Por outro lado, são também de descrédito e, particularmente nas questões raciais e de respeito ao outro, encontram uma resistência muitas vezes feroz e alienada.

 

Daí vem a força de Pitanga: um filme que exalta as liberdades artísticas, sexual e de ideais obtidas em uma época de repressão, enquanto é lançado em um período de ideias e pessoas reprimidas em meio à liberdade.

 Foto: Nayara Reynaud

Pitanga (2016)

Duração: 110 min | Classificação: 12 anos

Direção: Beto Brant e Camila Pitanga

Roteiro: Beto Brant, Camila Pitanga, José Carlos Avellar e Marçal Aquino

Depoimentos: Antonio Pitanga, Camila Pitanga, Caetano Veloso, Maria Bethânia, Lea Garcia, Chico Buarque de Hollanda, Rocco Pitanga, Carlos Diegues, Sergio Ricardo, Othon Bastos, Itala Nandi, José Celso Martinez, Selma Egrei, Gésio Amadeu, Zezé Motta, Neville D'Almeida, Elisa Lucinda, Silvio Guindane, Tamara Taxman, Ziraldo, Ângela Leal, Ruth De Souza, Haroldo Costa, Joel Zito Araújo, Hugo Carvana, Tonico Pereira, Paulinho da Viola, Luiz Carlos Barreto, Jorge Coutinho, Milton Gonçalves, Walter Lima Jr., Benedita da Silva, Martinho da Vila, Gilberto Gil e Lázaro Ramos

Distribuição: Espaço Filmes

 

 

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