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LOGAN | Aprendendo a dizer adeus

06/03/2017

 

Quando a voz de Johnny Cash cantando Hurt, sua versão intimista da música no Nine Inch Nails, surgiu no trailer de Logan (2017), já era um indício que o mutante praticamente invencível com o seu alto poder de regeneração, que se tornou um ícone da franquia cinematográfica dos X-Men, iria se mostrar agora um homem vulnerável: ao tempo, à dor de ver tantos que amava partirem e sem enxergar mais o propósito pelo qual costumava lutar.

 

Em visita ao Brasil para divulgar a nova produção, o intérprete do Wolverine por 17 anos, Hugh Jackman, afirmou que fez questão que o longa tivesse o “Logan” no título em vez da alcunha mais conhecida do personagem, pois este é um filme sobre um homem e não o super-herói. Na coletiva de imprensa realizada em São Paulo, no último dia 19, quando o ator disse que os brasileiros têm dado muito suporte à saga dos mutantes criados por Stan Lee e Jack Kirby nas histórias em quadrinhos, desde que foi para os cinemas em 2000 – quando ele também esteve em divulgação por aqui –, o australiano declarou que a obra é adulta, não adaptada para o entretenimento infantil, e fala sobre questões humanas, “envelhecer, vida, família, o custo de se conectar”.

 

Para isso, o cineasta James Mangold, que já havia dirigido Wolverine: Imortal (2013), transferiu a trama para o não tão longínquo ano de 2029, a fim de se afastar das linhas temporais da franquia e compor um filme mais isolado. Nele, James "Logan" Howlett tenta viver incólume em sua rotina de motorista de luxo de aplicativo – uma espécie “Uber VIP” – no Novo México e não levantar suspeitas do que um dia as suas garras de adamantium foram capazes de fazer. Sem o nascimento de um novo mutante há alguns anos e a forte perseguição aos que ainda restaram vivos, o herói agora envelhecido tenta proteger seu velho amigo Charles (Patrick Stewart) da busca do governo pela poderosa mente do Professor Xavier, e de si mesmo, mantendo-o em um esconderijo no México com a ajuda de Caliban (Stephen Merchant).

 

É de lá que vem Laura (Dafne Keen, meticulosamente escolhida para o papel, sendo filha do ator inglês Will Keen e da atriz e dramaturga espanhola María Fernández Ache, em seu segundo trabalho depois da série The Refugees), uma menina de 11 anos que, não por coincidência, se parece muito com ele e também precisa de sua proteção. Identificada como a X-23 de uma experiência de crianças geneticamente modificadas, realizada pelo norte-americano Dr. Rice (Richard E. Grant) no país vizinho, ela está sendo perseguida por Pierce (Boyd Holbrook) e seus capangas após uma fuga em massa dos “pacientes”. Aliás, é bem simbólico em tempos de reforço das fronteiras como barreiras e não um espaço de troca, com muros e mudanças em blocos político-econômicos continentais, o fato de esses jovens saírem do México e terem de atravessar os Estados Unidos em busca de refúgio no Canadá.

 

Segundo Jackman, “o grande inimigo de Logan é a intimidade”. Por isso, a relutante dinâmica paterna entre o protagonista e a nova pupila move a narrativa do longa, embora a trama de redenção de um homem violento protegendo uma garotinha não seja novidade. No entanto, além da jovem em questão saber se defender muito bem, a chave do roteiro de Scott Frank e Michael Green, escrito junto com Mangold, está em colocar esta típica e singela história heroica, ou de um anti-herói, dentro de um gênero que se estabeleceu em grande escala: o de filmes de super-heróis.

 

Relembrando como era a Comic Con, o grande evento em San Diego para amantes dos comic books e tudo relacionado a eles, 17 anos atrás, o ator frisou como Bryan Singer, fazendo de X-Men: O Filme (2000) uma obra sobre discriminação, abriu um caminho para as adaptações de HQ’s no cinema, pavimentado por Christopher Nolan com a trilogia Batman do Cavaleiro das Trevas. Por isso, Hugh estava curioso para ver como Logan funcionará para o gênero, com a sua mistura própria de faroeste e road movie. Além da citação direta a Os Brutos Também Amam (1953), ao qual Laura assiste no hotel e guarda as falas pra um momento posterior, o australiano enumerou outras referências do longa, a exemplo de Os Imperdoáveis (1992), de Clint Eastwood, O Lutador (2008), de Darren Aronofsky, e Pequena Miss Sunshine (2006), de Jonathan Dayton e Valerie Faris.

 

Olhando atentamente aos filmes de super-heróis dessas quase duas décadas, alguns já se arriscaram buscando influências em outros gêneros: além da variação do drama a comédia, há o histórico Capitão América: O Primeiro Vingador (2011), o thriller político na sequência Capitão América 2: O Soldado Invernal (2014) e até o tom transcendental de Doutor Estranho (2016). Porém, todos eles seguem uma mesma estrutura que, ao menos do clímax, entrega a dose de entretenimento gigantesco que o público se acostumou, enquanto a ação propriamente dita deste longa só vem quando necessária, de uma maneira brutal e realista – dentro do que é possível neste universo ficcional dos mutantes.

 

Da mesma forma, se Deadpool (2016) – que aparece em uma cena teaser exibida nas cópias comerciais, mas não na sessão de imprensa – serviu como uma abertura para o uso mais explícito da violência no gênero, provando que a censura para maiores de 17 anos nos EUA não prejudicaria a bilheteria, a utilização dela servia para uma exploração, às vezes cômica, que entretém. Aqui, ela é fundamental para a composição dos personagens, desde Charles, que não quer enxergar os danos causados por si a partir do momento que a idade avançada já não lhe dá mais controle de sua própria mente, até como a violência moldou e atingiu Laura em sua formação e Logan ao longo dos anos. Mangold se prende justamente no momento em que as consequências das escolhas da vida mais pesam em um indivíduo.

 

Quando o protagonista, com toda a experiência acumulada, aconselha a garota, “Não seja o que eles te fizeram”, Jackman vê ali uma mensagem universal ao público, para não se sentir oprimido pelo que pais, a sociedade, a mídia, entre outros organismos, te obrigam a ser, fazer e seguir. O próprio personagem – o qual o ator interpretará pela última vez, como reforçou durante a coletiva, para se dedicar à família e a outros trabalhos, a exemplo do musical The Greatest Showman (2017) – é fruto disso, não apenas por ter sido forçado a participar de uma experiência científica que lhe inseriu o adamantium pelo corpo, mas por ter sido usado quando era útil e depois desprezado, muito mais agora quando está envelhecido.

 

Colocar o Wolverine nessa situação é uma ousadia bem-vinda do cineasta em uma indústria cinematográfica sempre em busca da juventude e que, como os agentes midiáticos em geral, descarta os mitos que cria, tais quais os olimpianos descritos por Edgar Morin, agora cada vez mais instantâneos e fugazes. De maneira igual, a sociedade se esquece das pessoas mais velhas – não precisa nem ser idoso(a), vide o mercado de trabalho –, por isso é tão significativo para o público ver um super-herói, ao qual assistiu por tantos anos na tela, envelhecer de uma maneira tão humana.

 

E a voz de Johnny Cash, que está sim na trilha, até porque James Mangold retratou este anti-herói da música em Johnny & June (2005), mas com outra canção, a apocalíptica The Man Comes Around, vem lembrar a grandiosidade do fim, na pequenez de cada indivíduo. Feliz com a marca final que deu ao personagem mais importante de sua carreira, Hugh Jackman afirmou que não sentirá saudades dele, pois o Wolverine sempre esteve com ele, nem triste, porque “sinto que ainda sou da família X-Men”. Se o sucesso que Logan faz agora no box office em sua estreia ainda fosse dúvida, essa seria a única certeza que o filme só reforçaria no coração dos fãs.

 

Logan (Logan, 2017)

Duração: 137 min | Classificação: 16 anos

Direção: James Mangold

Roteiro: Scott Frank, James Mangold e Michael Green, inspirado em personagens criados nas HQ’s do X-Men, por John Romita Sr., Roy Thomas, Len Wein, Herb Trimpe, Craig Kyle e Christopher Yost

Elenco: Hugh Jackman, Patrick Stewart, Dafne Keen, Boyd Holbrook, Stephen Merchant, Elizabeth Rodriguez, Richard E. Grant, Eriq La Salle, Elise Neal e Quincy Fouse (veja + no IMDb)

Distribuição: 20th Century Fox

 

 

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