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CINQUENTA TONS MAIS ESCUROS | Uma história submissa

10/02/2017

 

Aparentemente, E.L. James é tão ávida por controle quanto seu protagonista. Depois de muitas discussões com a diretora Sam Taylor-Johnson e a roteirista Kelly Marcel durante a produção da adaptação cinematográfica do primeiro livro de sua trilogia, a autora ganhou ainda mais poder como produtora em Cinquenta Tons Mais Escuros (2017), após muita pressão no estúdio. Para que suas decisões sobre os rumos do filme fossem melhores aceitas pela equipe criativa, Niall Leonard, marido da escritora, assumiu o roteiro e James Foley, que recentemente foi responsável por uma dúzia de episódios de House of Cards (2013-), a direção.

 

Só que neste processo diferente de criação, a sequência não demonstra a mesma tentativa de Cinquenta Tons de Cinza (2015) em construir algo mais rico do que seu material de origem. O novo longa se nivela à prosa fraca do best-seller e o modo como o script reitera uma mesma informação diversas vezes comprova isso. Tal qual os diálogos que conduzem a história de Anastasia Steele (Dakota Johnson) e Christian Grey (Jamie Dornan), em que a então estudante de Literatura Inglesa, agora formada e trabalhando em uma editora, tenta estabelecer uma relação e não um contrato com o milionário empresário. Mas o problema é que ele tem seus próprios demônios a domar, de um passado traumático com a mãe biológica que se refletem na sua mania de dominação, não só sexual.

 

A vida pregressa do rapaz diz mais sobre o “Mais Escuros” presente no título do que o pretenso thriller sexual que o filme deveria ser, desde o momento em que a adaptação deixa para trás muitas das “brincadeiras” sadomasoquistas presentes no segundo livro. Isso porque, se falta química entre os atores, também sobra pudor da produção e da direção. No caso de Foley, que já dirigiu Dominados Pelo Desejo (1990) e A Estranha Perfeita (2007), a falha não está necessariamente pela escolha de nus discretos, mas por não conseguir imprimir o mínimo de furor e paixão em seus planos das cenas de sexo e afins, pois o que está escondido também poderia despertar a libido.

 

Insípido no erotismo, o longa também é raso ao tentar estabelecer seu suspense com a presença extremamente pontual de Bella Heathcote e Kim Basinger, que chega a ser cômico em alguns momentos – o terceiro ato reserva, pelo menos, três cenas em que o riso é involuntário graças a um roteiro e abordagem canastras que não se vê mais nem em novelas. Igualmente, não ajuda a trilha sonora persistente de Danny Elfman, executada quase que continuamente sem trazer sensualidade nem tensão. Ela é mais interrompida, praticamente, pela seleção musical pop da produção do que por silêncios, desde a abertura com a versão de Corinne Bailey Rae para The Scientist do Coldplay até a música-tema I Don’t Wanna Live Forever com Zayn e Taylor Swift, passando por mais uma canção da prolífica Sia, Halsey e outros nomes do momento, mas que não soa tão integrada à trama como aconteceu em 2015.

 

Aliás, do que a sequência perdeu em relação ao primeiro filme, o que se sente mais é o sentido da obra de ser uma forma de expressão feminina de seus próprios desejos sexuais e de controle de seu destino. Se, no final de Cinquenta Tons de Cinza, Anastasia tomava a decisão de se afastar de seu perturbado amado, não demora muito para ela voltar aos seus braços nesta segunda parte. Agora, ela pode até propor o que ele pode e deve fazer na cama, mas toda vez que põe Christian na parede a cada vez que ele toma mais uma atitude errada, ela revela sua condição de submissa quando seu mestre lhe pede desculpas de novo e diz estar tentando mudar, em uma construção de personagem que não permite à Dakota empregar o mínimo de interesse que imprimiu na garota no anterior.

 

Bem longe dos heróis românticos de Jane Austen e de Charlotte Brontë, o Sr. Grey, que nem ao menos sangra mesmo depois de cair dos ares, quer controlar cada detalhe da vida da senhorita Steele, stalkeando a moça ou comprando celulares e empresas para ela, considerando-a como uma de suas propriedades: “Ele quer o que é meu”, o rapaz afirma sobre o chefe dela, cujas intenções são claras desde o início. Em uma submissão com a história semelhante à da personagem com ele, os fãs – que ficarão felizes com o aperitivo do capítulo final da trilogia, exibido durante os créditos – enxergam um romance na relação de dependência e dominação dos dois que até seria interessante se a franquia se dedicasse à complexidade do tema e não optasse pela simplificação vista em todos os aspectos de Cinquenta Tons Mais Escuros.

Cinquenta Tons Mais Escuros (Fifty Shades Darker, 2017)

Duração: 118 min | Classificação: 16 anos

Direção: James Foley

Roteiro: Niall Leonard, baseado no livro “Cinquenta Tons Mais Escuros” de E.L. James

Elenco: Dakota Johnson, Jamie Dornan, Eric Johnson, Bella Heathcote, Marcia Gay Harden, Eloise Mumford, Rita Ora, Luke Grimes, Max Martini, Victor Rasuk e Kim Basinger (veja + no IMDb)

Distribuição: Universal Pictures

 

 

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