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BELOS SONHOS | O luto adormecido

28/12/2016

 

 

“Tenha belos sonhos”, diz a mãe ao se aproximar de seu filho adormecido, como uma despedida, já que no despertar do dia seguinte, o menino se depara com a confusão em sua casa e a descoberta de que ela havia morrido. As últimas palavras dela dão nome ao livro autobiográfico de Massimo Gramellini, publicado em 2012 e que se tornou um best-seller na Itália, e ao título original de sua adaptação cinematográfica, Belos Sonhos (2016), do cada vez mais prolífico Marco Bellocchio. Mas também ficam marcadas no subconsciente do pequeno órfão durante toda a sua vida.

 

Exibido em Cannes, na Quinzena dos Realizadores deste ano, e na abertura da 40ª Mostra em São Paulo, o longa traz Massimo já adulto, sendo interpretado por Valerio Mastandrea, limpando a casa onde cresceu e que agora está à venda. A ocasião serve como um gatilho para o despertar de suas outras memórias – e, provavelmente, o espectador desejará durante a sessão que sejam recordadas as lembranças da infância e da adolescência, graças ao ótimo trabalho de Nicolò Cabras, especialmente, e Dario Dal Pero que dão vida à Massimo nos respectivos momentos. Algo muito bem caracterizado pela direção de arte, junto à fotografia e trilha sonora, na reconstituição de época, indo dos anos 1960 e passando pela década de 90.

 

O que essas recordações revelam, especialmente ao serem obtusas, é um interessante panorama psicológico da negação. Ao longo de toda a obra, Bellocchio faz um filme sobre o que não é dito, mas ainda assim sentido. Neste ponto, é um filme diametralmente oposto a Capitão Fantástico (2016), também lançado na última quinta (22), sobre um mesmo tema – que não será comentado para não adiantar a trama, embora não seja um grande spoiler aqui – e que igualmente foge do sentimentalismo dele, brincando com ele, neste caso.

 

Ainda que pesem no ritmo do segundo ato, com tempo excessivo dedicado a algumas passagens da vida adulta do protagonista, não se pode dizer que nenhuma delas é dispensável, pois todas rememoram no personagem a questão da morte e, consequentemente, a perda da mãe (espirituosa e frágil na pele de Barbara Ronchi) na sua infância – como visto paralelamente ao questionamento moral surgido na sequencia da guerra no Kosovo, em que foi repórter. É como o fantasma de Belphégor, do seriado francês que assistia com ela quando criança, sempre a o assombrar, mas também a lhe servir de refúgio.

 

Além da duração, outro senão do filme é ser muito autocentrado na figura de seu protagonista: se isto serve bem no caso da mãe de Massimo, pois a falta de compreensão sobre ela traduz a imagem incompleta que o filho tem dela, acaba prejudicando na caracterização de seu pai (Guido Caprino) ou da médica Elisa (Bérénice Bejo, um tanto desperdiçada no papel).

 

Mas, como o padre aconselha muito bem Massimo, na vida, deve-se trocar os “se” pelos “apesar de”. Sendo assim, apesar de seus pequenos percalços, Belos Sonhos faz da trajetória individual do jornalista italiano, um retrato universal da importância dessa figura materna, mesmo quando está ausente. Indiretamente, o filme também cria uma proximidade com a plateia brasileira, com a paixão substituta que surge no órfão pelo futebol, mais especificamente pelo Torino, clube da cidade de Turim que, assim como a Chapecoense, teve sua história marcada por um trágico acidente de avião, um luto marcado em um memorial mostrado na produção, na cena da cerimônia dos torcedores, como bem lembrado pelo Zanin, em seu blog no Estadão, quando ocorrido o acidente.

Belos Sonhos (Fai Bei Sogni, 2016)

Duração: 134 min | Classificação: 16 anos

Direção: Marco Bellocchio

Roteiro: Valia Santella, Edoardo Albinati e Marco Bellocchio, baseado no livro “Fai Bei Sogni” de Massimo Gramellini

Elenco: Valerio Mastandrea, Nicolò Cabras, Dario Dal Pero, Barbara Ronchi, Guido Caprino e Bérénice Bejo (veja + no IMDb)

Distribuição: Mares Filmes

 

 

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